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O FILME DO MANAGEMENT NOS 92 ANOS DE DRUCKER
A gestão é uma ciência
empírica antiga. Sempre teve práticos
exímios e muitos profetas. Alguns deles são
nomes fundadores que as gerações mais
recentes de executivos mal ouviram falar - como o francês
Henry Fayol, o alemão Walther Rathenau, o japonês
Shibusawa, ou os americanos Mary Parker Follet ou H.L.Gantt.
Doutros ouviram provavelmente falar mal - como Frederic
Winslow Taylor (transformado em "demónio"
com o epíteto do "taylorismo") ou Alfred
Sloan, a força da natureza que moldou o grupo
empresarial capitalista moderno. Mas só na segunda
metade do século XX, o management se tornou numa
doutrina assimilável para o comum dos mortais,
algo que se poderia aprender e ensinar. São muitos
os nomes de académicos e consultores que associaram
o seu nome a esta "massificação".
Mas, o homem que iniciou essa revolução
tem hoje 92 anos. Já foi baptizado de "Dr.Management",
mas ele recusa o cognome. E, também, nos adverte
para NÃO encararmos estas ideias como "receitas"
- mas sim como ferramentas a adequar ao contexto.
Jorge Nascimento Rodrigues
(mailto:jnr@groupadventus.com)
Versão 2.0 publicada na Revista Portuguesa DIRIGIR
em 2001
CRONOLOGIA
DA REVOLUÇÃO DA GESTÃO
AUTORES ENTREVISTADOS
EM GURUS ON LINE
Peter Drucker
| Kenichi Ohmae
| Alvin Toffler
| Alain Touraine
| Michael Hammer
| Gary Hamel
| C.K. Prahalad
| Peter Senge
| Ted Gaebler
| Charles Handy
| Don Tapscott
| Kevin Kelly
Estamos a dois anos de um aniversário original
- em 2004 terá decorrido meio século sobre
a publicação de The Practice of Management,
considerada a primeira "bíblia" da
gestão. Mesmo em livro de bolso com letra miudinha
- como a edição londrina da Pan Books
dos anos 60 - são mais de 450 páginas.
O livro pretendia "encurtar o fosso entre o que
pode ser feito e o que está a ser feito, entre
os líderes da gestão e a média".
E, no inconfundível estilo do seu autor, explicava:
"Apesar de não estar preocupado com as técnicas,
este é um livro prático. Baseia-se em
muitos anos de experiência de trabalho com vários
tipos de gestão - de pequenas empresas bem como
de grandes e muito grandes companhias". A alguns
dos práticos da gestão, o autor agradece
a inspiração, citando uma lista extensa,
em que se destaca um nome, que denomina de "padrinho"
do livro, Harold Smiddy da General Electric daqueles
anos. E, mais adiante, sublinha: "Mas este livro
é também escrito para o cidadão
comum sem qualquer experiência directa de gestão".
O homem que escreveu este livro e estas palavras introdutórias
em Nova Jérsei em 1954, Peter Drucker, tinha,
na altura, 45 anos, e terá 94 anos, em 2004.
Nestes 50 anos foram muitas as "buzzwords"
- algumas delas já estão completamente
esquecidas, pois não passaram de modas. Mas uma
boa parte delas - como a qualidade dos anos 50, as relações
humanas dos anos 50 e 60, a estratégia e o marketing
dos anos 60, a excelência dos anos 80, a aprendizagem
organizacional dos anos 70, a competitividade dos anos
80 e 90, as competências nucleares e a reengenharia
dos anos 90 - deixaram um lastro profundo, e continuam
a ser "ferramentas" úteis, se encaradas
como tal e não como doutrinas milagrosas.
Um acontecimento histórico
A revolução iniciada por Drucker nos
anos 40 poderá parecer quase acidental - ele
próprio é tão modesto ao ponto
de recusar o cognome de guru dos gurus do management.
E confessa que o êxito de vendas de Concept of
Corporation - o livro que escreveu em 1946 baseado no
estudo da General Motors - foi até para ele uma
surpresa que demonstrou que "havia um interesse
enorme pela gestão".
O porquê deste interesse "popular"
é compreensível, se recuarmos à
época. Os práticos do mundo empresarial
- como Alfred Sloan, o homem que mudou a face da administração
e da organização das grandes empresas,
com a sua experiência na General Motors desde
1923 - encaravam a gestão como o dom de um príncipe
e, naturalmente, disso gostariam de fazer coutada. Ora
o fluxo de gente que vinha de profissões na engenharia
e nas instituições financeiras e que,
de um momento para o outro, fora "empurrado"
para posições executivas, sem qualquer
bagagem na matéria, estava a criar este mercado
literário potencial.
Drucker com a trilogia de livros que publicou nos anos
40 e 50 - Concept of Corporation (1946), The
New Society (1951) e The Practice of Management
(1954) - veio mostrar, de uma penada, três coisas:
havia, na verdade, uma nova profissão historicamente
emergente (o gestor, ou o "executivo" como
lhe chamara em 1938 Chester Barnard), que se transformaria
num novo segmento social no pós-guerra; nascera
um novo tipo de estrutura organizacional ascendente
(a corporação) nomeadamente com a Nova
Economia do automóvel desde os anos 20; e surgia
a possibilidade de se aprender a governar as empresas
e as organizações, de se transferir o
"know how" gestionário de uma meia
dúzia de capitães de indústria
e profetas para um público de protagonistas mais
alargado.
"A emergência do management como uma instituição
distinta, fundamental e liderante é um fenómeno
essencial na história social. Raramente - se
é que alguma vez aconteceu algo semelhante -
uma nova instituição básica, um
novo grupo liderante, emergiu tão rapidamente
como sucedeu com o management desde o dealbar deste
século", escreveu Drucker logo na primeira
página do primeiro capítulo de The
Practice of Management.
Drucker não "inventou" a disciplina
da gestão - ele recusa peremptoriamente essa
afirmação de alguns comentadores apologéticos.
Ele intuiu um movimento social e dedicou-se a sistematizar
o que os profetas e os práticos anteriores vinham
fazendo.
Convém, por justiça, recordar Barnard
e os seus livros de referência The Functions
of the Executive (1938) e The Nature of Leadership
(1940). Algumas das ideias que Drucker sistematizou
estavam lá. Um dos traços do livro é
sublinhar que as grandes empresas são, acima
de tudo, organizações sociais e que os
processos de negócio são processos sociais.
Tudo isso ocorreu empiricamente a Chester Barnard -
ele trabalhou na AT&T durante quase 40 anos, tendo
culminado a carreira dirigindo a Bell de Nova Jérsei.
Depois deste intróito fundador, o filme do management
da segunda metade do século XX pode começar
a correr.
Exilados & Heréticos
Os dois primeiros grandes movimentos da gestão
no pós-guerra são curiosamente protagonizados
por gente que ou não estava na boa graça
dos patrões da época ou que só
foram ouvidos no "exílio", bem longe
da América e da Europa - onde o leitor menos
espera, no Japão!
O movimento da Qualidade lançado pelas obras
de W. Edwards Deming e Joseph Juran dos anos 50 só
seria "ouvido" entre os japoneses e completamente
olvidado pelos ocidentais (que só descobririam
Deming em 1982 quando este escreveu Out of the Crisis,
e Juran quando publicou Planning for Quality
em 1985).
Tudo começou no longínquo Império
do Sol Nascente (saído de uma derrota humilhante)
quando Ichiro Ishikawa, primeiro presidente da Federação
das Organizações Económicas do
Japão e da União dos Cientistas e Engenheiros
Japoneses, convidou um obscuro estatístico (que
colaborara em 1947 na organização do censo
japonês que ocorreria em 1951), de nome W. Edwards
Deming, a proferir uma conferência no Clube dos
Industriais de Tóquio em Julho de 1950.
Deming ia mais longe do que a tradicional visão
"engenheira" do controlo de qualidade - trazida
para o Japão logo nos pós-guerra por um
grupo de engenheiros americanos muito influenciado pela
abordagem estatística de Walter Shewhart. Se
a qualidade é, de facto, para acontecer na prática
terá de ser liderada pela gestão - esta
foi a principal mensagem de Deming àquela audiência
em Tóquio.
Os japoneses criariam um Prémio - Deming
Application Prize - cujo primeiro ganhador, em 1951,
foi Koji Kobayashi.
Por outro lado, aqueles anos viram a emergência
dos heréticos da chamada corrente das relações
humanas - da "humanização" do
local de trabalho e de um novo tipo de relacionamento
com os trabalhadores. Eles actuaram, no terreno, muitas
vezes na quase clandestinidade, sem divulgação
das suas "experiências" de criação
das "fábricas socio-técnicas"
(o leitor ficará admirado se souber que a primeira
aconteceu na Procter & Gamble).
O movimento começou a colocar a cabeça
de fora quando The Human Side of Enterprise, escrito
por Douglas McGregor em 1960, despertou uma vaga de
leitores e quando o artigo escrito em 1968 por Fredrick
Herzberg na revista Harvard Business Review - "Como
se motivam os empregados" - se tornou no mais solicitado,
até hoje.
McGregor inventara uma alegoria em torno da oposição
entre o que designou a "teoria X" e a "teoria
Y" - ou seja, no primeiro caso ("X")
teríamos o reino da autoridade e do comando e
controlo face à mediocridade inata dos "executantes",
no outro extremo ("Y"), havia que libertar
o empenho e competência de todos, pois "o
humano típico não é um mandrião
inato" e não é verdade que com o
cacete e a cenoura as pessoas trabalhem com eficácia
- ela vem da motivação, do envolvimento.
Apesar do simplismo desta divisão - que o próprio
autor sempre recusou -, a ideia tinha tido alguma experimentação
prática: McGregor tinha ajudado a desenhar uma
daquelas fábricas da Procter & Gamble, a
da Geórgia (nos Estados Unidos), que se tornaria
um sucesso de performance.
Marketing não é cosmética
As vendas eram tradicionalmente abrilhantadas com os
truques típicos que transformavam a arte de vender
em quase charlatanice. Até que um professor da
Harvard Business School e consultor veio dar um ar sério
ao tema. Um célebre artigo na revista Harvard
Business Review de Julho-Agosto de 1960 tinha por título
polémico "Miopia no Marketing". O artigo
era assinado por Theodore Levitt, a quem baptizaram
de "pai" do Marketing, quando este passou
a disciplina respeitada.
O artigo em questão pertence a um grupo selecto
de "papers" académicos que transformaram,
de facto, a concepção do mundo dos práticos
nas empresas. Nesse artigo, Levitt fez uma distinção
entre as tarefas de vendas e o marketing. Ele argumentava
que a preocupação central das empresas
deveria satisfazer os clientes e não produzir
bens e impingi-los com truques.
Esta emergência do marketing surgiu, na sequência,
de um renascimento das marcas (o caso da Marlboro no
final dos anos 50 tornou-se um case study). O trabalho
pioneiro de Levitt levou a uma lenta compreensão
de que investir nesta área era criar algo de
"imaterial" (diríamos hoje) na cabeça
das pessoas concretas que constituem os mercados.
O outro pilar humano desta disciplina foi Philip Kotler.
A ele devemos a cunhagem de expressões como "segmentação",
"posicionamento" e "definição
do alvo". Reforçou as convicções
de Levitt e deu-nos esta pérola de definição:
o marketing não é cosmética para
vender o que se tem, mas a arte suprema de criar valor
para o cliente. Com Marketing Management, de
1967, o autor deu o pontapé de saída para
mais de 25 livros seus até aos dias de hoje.
Estratégia & Paradigma
Os anos 60 assistiram, também, ao triunfo da
estratégia - como disciplina "rainha"
do management. Um historiador económico, Alfred
Chandler, em 1962, escreveu Strategy and Structure
para colocar a estratégia no topo da agenda e
dizer claramente que ela devia "liderar".
As decisões sobre a estrutura das organizações
viriam depois em conformidade com a estratégia.
Igor Ansoff publicou, cinco anos depois, Corporate
Strategy, e lançou a moda do planeamento
estratégico (que daria ao grupo Shell a fama
de ter antecipado a crise petrolífera dos anos
70). Ansoff fora vice-presidente da Lockheed e acreditava
que tinha descoberto um "modelo prático
para a tomada de decisões estratégicas
numa empresa". Ele separou, definitivamente, a
gestão operacional da gestão estratégica.
Um japonês desconhecido, que se doutorara em
energia nuclear no MIT, Kenichi Ohmae, escreveria "A
Mente do Estratego" em 1975 (algo que os ocidentais
só descobririam com a tradução
de 1982). A tese do consultor da McKinsey em Tóquio
era que o segredo dos japoneses não estava em
grandes staffs de planeamento estratégico nas
empresas - a fonte era um talentoso estratego que se
guiava por um triângulo estratégico: a
empresa, os clientes e a concorrência.
Peter Drucker, por seu lado, foi dos primeiros a antecipar
a "grande factura histórica" dos anos
70 (abandono do padrão ouro, crise petrolífera,
esgotamento do modelo de crescimento industrial, "take
off" do computador pessoal). Em The Age of Discontinuity
(1969) falou da emergência do "trabalhador
do conhecimento" e do seu impacto na economia e
sociedade.
Foi, nestes anos, que se difundiu a ideia de "mudança
de paradigma" e de começar a "pensar
o impensável" com os futuristas como Herman
Kahn, o casal Toffler (com o primeiro livro, "O
Choque do Futuro"), Willis Harman e Oliver Markley
(Changing Images of Man), Jay Forrester e o casal
Meadows (que escreveu o célebre relatório
Limites ao Crescimento), e com os sociólogos
arautos da "sociedade pós-industrial",
como Daniel Bell e Alain Touraine.
A competitividade
A abrir a década de 80, a estratégia
volta a ter glória com o trabalho de um académico
da Harvard Business School, Michael Porter, que criaria
o conceito de "vantagem competitiva", que
ganharia o discurso empresarial e, mais tarde, político.
O seu livro Competitive Strategy, de 1980, tornou-se
numa "bíblia".
Drucker, que raramente refere autores vivos, considera
o seu trabalho como um dos exemplos de solidez na investigação
académica de gestão.
A Porter ficámos a dever o modelo das cinco
forças competitivas - a entrada de novos competidores,
a ameaça de substitutos, o poder de negociação
dos compradores, o poder de negociação
dos fornecedores e a rivalidade entre concorrentes -
e o conceito de estratégias genéricas.
Com este último, Porter abriu três portas
para a orientação de uma empresa: competir
pela diferenciação, liderar pelo custo,
ou focalizar. Quem for claro na escolha, tem sucesso.
"Tentar sentar-se no meio coloca a empresa num
situação estratégica muito pobre",
escreveu o Professor de Harvard.
Japoneses & Excelência
Mas, quase que na penumbra, novos protagonistas da
geo-economia começavam a dar cartas. De um momento
para o outro, o Ocidente descobria, surpreso, no início
dos anos 80, o que se viria a baptizar de "gestão
à japonesa" (foi, nesta altura, que, também,
se soube do êxito do movimento da qualidade nalgumas
indústrias nipónicas).
Um programa televisivo da NBC (cadeia norte-americana)
em Junho de 1980 levava o chamariz polémico:
"Se o Japão consegue, porque é que
nós não?". Nele esteve envolvido
Deming.
Os livros sobre este "modelo" de paulatina
inovação "incremental" sucederam-se
em 1981 - pela pena de William Ouchi (que cunhou o célebre
título Teoria Z, uma noção que
foi beber aos trabalhos finais de McGregor antes da
sua morte em 1964, e colocou como subtítulo 'O
desafio japonês') e com The Art of Japanese
Management, de Richard Pascale e Anthony Athos.
O contra-ataque americano a este deslumbramento pelo
Japão não se fez esperar. Com alguma ingenuidade
e ausência de rigor na investigação
científica, Tom Peters e Robert Waterman, consultores
da McKinsey, produziram como que um relatório
de reportagem onde mostravam que havia empresas de sucesso
na América. Num golpe literário, de puro
acaso, produziram o livro de management mais vendido
de sempre - "Em Busca da Excelência",
publicado em 1982. O management chegava finalmente às
massas. Iniciava-se o "boom" da literatura
de gestão.
Tom Peters, ainda hoje, faz render aquele momento:
"O livro foi um ponto de inflexão que marcou
o fim de uma era e o começo de outra. A procura
da 'excelência' foi, na época, uma mensagem
revolucionária", escreveu ele, ainda recentemente,
numa confissão na revista Fast Company, por ocasião
do próximo aniversário dos 20 anos de
publicação do livro.
Ainda neste período nasce a ideia de "cultura
de empresa" com o livro de um psicólogo
social, Edgar H. Schein, Organizational Culture and
Leadership, em 1985. Foi ele que escreveu: "A
empresa é um veículo económico
inventado pela sociedade. As empresas não têm
nenhuma direito divino para sobreviverem. Mas os sistemas
de valores e as filosofias sobrevivem. As pessoas levam-nas
com elas".
Mais tarde ele faria a radiografia das várias
culturas de gestão em choque dentro das organizações
e que têm dificuldade em coexistirem - a dos operacionais,
a dos engenheiros e a dos executivos. O sucesso virá
de "alinhá-las" e de promover o "diálogo
cultural cruzado entre elas", recomenda Schein.
A indústria dos gurus e das
"buzzwords"
O êxito de banca do livro de Tom Peters e Bob
Waterman abriu terreno a uma verdadeira indústria
- de "best sellers" e de gurus, entre académicos,
consultores com experiência no terreno e meros
diletantes e "entertainers".
A primeira parte da década de 90 viu suceder-se
um corrupio de "buzzwords", muitas delas pioneiramente
lançadas na revista americana Harvard Business
Review e depois transformadas em livros "best sellers"
e em verdadeiros negócios de consultoria de massa
- como nomeadamente aconteceu com a reengenharia inventada
por Michael Hammer, um professor de ciências da
computação do MIT, em 1990.
O artigo original na Harvard Business Review levou
o título de "Reingineering Work: Don't Automate,
Obliterate", um grito radical contra a herança
da Revolução Industrial, que seria reforçado
com o livro. "Enquanto que a Revolução
Industrial se focalizou nas tarefas individuais, a revolução
da reengenharia concentrou-se em todo o processo, focando-se
em todo o trabalho de cada pessoa", explicava Hammer
de um modo simples aos seus discípulos.
A reengenharia viria, no entanto, a ser vítima
do contexto de "downsizing" em muitos sectores
na primeira metade dos anos 90, a que ficaria "colada"
em definitivo. O seu nascimento na parte final da era
pré-Web, não lhe permitiu "cavalgar"
o boom posterior.
A década de 90 assistiria, de facto, ao multiplicar
de ferramentas de gestão - nomeadamente as competências
nucleares distintivas de uma empresa, teorizadas por
Gary Hamel e C.K. Prahalad num artigo inicial em 1990
na Harvard Business Review ("The Core Competence
of the Corporation"), o renascimento da "aprendizagem
organizacional" com a obra de Peter Senge (A Quinta
Disciplina: Arte e Prática da Organização
que Aprende) e a própria "extensão"
à Administração Pública
da vaga de mudança, com o lançamento do
movimento de "reinvenção da governação",
a partir do título de um livro publicado por
Ted Gaebler e David Osborne em 1991.
Em particular, o artigo de Hamel e Prahalad - "The
Core Competencies of the Corporation" - teve um
eco muito fundo nos meios empresariais. O termo passou
a ser obrigatório e levou a uma mudança
de óptica - da tradicional abordagem dos negócios
em que a empresa historicamente se meteu (e das unidades
de negócio que criou) para a identificação
das competências distintivas e diferenciadoras
que adquiriu. Esta viragem de análise fundamentou
o movimento de alienação e "outsourcing"
de tudo aquilo que não se coadunava com as competências
centrais e motivou a procura de novas oportunidades
de negócio em função do portefólio
de competências que se identificaram.
A primeira metade da década assistiu a uma revolução
silenciosa, com um esforço claro de romper com
uma tradição arreigada: a gestão
tem de largar, de vez, os moldes tradicionais herdados
de Taylor (a tarefa,1911), de Fayol (os silos funcionais,
1916), de Max Weber (a burocracia, anos 10-20 do século
XX) e Alfred Sloan (a organização multidivisional,
1923-25).
1990 traria, de novo, Michael Porter para a ribalta
com a publicação de uma obra de investigação
académica muito ambiciosa - The Competitive
Advantage of Nations. A visão macro-económica
e geo-económica que trouxe levou muitos governos
a usar os serviços de consultoria do professor
de Harvard e desenvolveria um negócio de criação
de indicadores de "competitividade" dos países.
Para o gestor, empreendedor e responsável de
políticas públicas, Porter massificou
um conceito operativo muito útil com suporte
empírico - o de "cluster" industrial
identificável geográfica e territorialmente.
Mais, recentemente, Porter "estendeu" a noção
ao campo da inovação. Em "Innovation:
Location Matters", publicado na revista Sloan Management
Review (edição do Verão de 2001
- e traduzido pela Revista
Portuguesa de Gestão, na sua edição
de Julho/Agosto/Setembro de 2001), reafirma: "A
nossa pesquisa revela o elevado grau de influência
do ambiente local no sucesso de uma actividade de inovação".
A Sociedade do Conhecimento
Drucker, uma vez mais, marcaria o tom da época
- em "A Sociedade Pós-Capitalista",
publicada em 1993, explicaria desenvolvidamente a economia
emergente, a economia do conhecimento, os seus protagonistas
- o trabalhador do conhecimento - e as implicações
para as organizações.
A ideia do "trabalhador do conhecimento"
é velha em Drucker - se por "velho"
aceitarmos que ele descobriu esse personagem nos anos
50 do século XX. Esse grupo social é hoje
1/3 da população activa e será
40% em 2020, segundo um estudo feito por Drucker e divulgado,
este ano, pelo The Economist (de 3/11/2001).
O próprio conceito de sociedade do conhecimento
tem vindo a pegar na última década. Interrogado
sobre o que é tal coisa, Drucker respondeu sem
grande floreado: "É um conceito simples.
Num sistema capitalista, o capital é o recurso
de produção crítico, e está
totalmente separado, e mesmo em oposição,
com o trabalho. Na sociedade para que nos estamos a
encaminhar muito rapidamente, o saber é o recurso-chave.
Não pode ser comprado com dinheiro nem criado
com capital de investimento. O saber reside na pessoa,
no trabalhador do conhecimento".
E mais polémico ainda diria: "O capital
está a tornar-se redundante, isto é, está
a deixar de ser um 'recurso'. O capital é importante
enquanto factor de produção, mas não
é mais um factor de controlo".
Neste período de ouro de meados dos anos 90,
o management, cada vez mais, era "invadido"
pela análise histórica e sociológica,
e mesmo pela filosofia. Charles Handy, um irlandês
radicado em Inglaterra, a quem chamam "o Drucker
europeu", publica uma série de obras de
reflexão, entre elas "A Era do Paradoxo".
Os executivos começam a ser confrontados com
a necessidade de ter uma concepção do
mundo diferente - não basta saber manusear "ferramentas"
de gestão.
O interregno da Nova Economia
Com o disparar da massificação da Internet
e com a transformação da World Wide Web
numa ferramenta de fácil acesso ao comum dos
mortais (através da criação dos
"browsers") e numa plataforma de negócios,
a doutrina do management foi progressivamente "cercada"
pelas novas realidades.
Os gestores, subitamente, deixaram de ler com a mesma
sofreguidão os gurus académicos e das
consultoras de gestão, e viraram-se para novos
"best sellers" que pintavam uma nova dinâmica
empresarial.
Um consultor canadiano forja o termo de "economia
digital" com uma obra com esse mesmo título
publicada em 1996 - The Digital Economy: Promise
and Peril in the Age of Networked Intelligence,
da autoria de Don Tapscott. Um jornalista da revista
Wired (então a de maior culto), Kevin Kelly,
publica em 1998 New Rules for the New Economy,
onde se viravam do avesso as leis económicas
válidas ao longo do século.
Novos termos popularizados por esta literatura da "Nova
Economia" começaram a invadir o discurso
empresarial e a influenciar, até certo ponto,
a prática de gestão: intangível,
rede, "soft", inversão da formação
dos preços, obsoletização, etc.
Conceitos que tinham surgido num contexto pré-Web,
como a gestão do conhecimento e o capital intelectual,
ganham estatuto e permeiam as novas plataformas e ferramentas.
O "crash" do NASDAQ no princípio de
2000 e a inversão no clima psicológico
do empreendedorismo "dot-com", colocou um
ponto final neste interregno.
Com a abertura do novo século, a gestão
pura e dura quer regressar à ribalta. O primeiro
académico a lançar uma pedrada no edifício
teórico da Nova Economia foi Michael Porter.
O académico de Harvard, num artigo publicado
em Março de 2001 na Harvard Business Review,
acusa a Nova Economia (dos anos 90 do século
XX) de ter gerado um modelo artificial de custos e uma
utopia de negócio subsidiada pelos accionistas
e investidores e não alimentada pelos lucros
obtidos no mercado. "Os pioneiros da Internet violaram
quase todos os preceitos de uma boa estratégia",
rematou Porter.
Estamos, ainda, a curar esta doença infantil
da Nova Economia digital.
O fenómeno metanacional
Mas na ribalta emerge um novo debate, crucial para
os gestores e empreendedores. Mais importante que a
fronteira doméstica é a internacional
- global, dirão os mais ousados, num século
em que o termo de "globalização"
está omnipresente.
Mas deverão as empresas "internacionalizar-se"
seguindo uma abordagem passo a passo (do mercado doméstico
à exportação para o contentor e
depois à multinacionalização),
forçosamente lenta (implicando décadas
de aprendizagem e experimentação) e tendente
a "clonar" noutras paragens a sua cultura,
ou deverão pensar "global" desde o
berço e acelerar esse posicionamento?
Sob influência do trabalho de Yves Doz, do INSEAD,
um livro acaba de ser publicado em co-autoria com um
português, José Santos, e com Peter Williamson,
sugestivamente intitulado From Global to Metanational.
A noção vem do estudo empírico
de casos em que sobressaem a Nokia ou o Linux, finlandeses.
O que motivou que a corrente de investigação
académica daquele país nórdico
seja uma das mais fortes nesta matéria. Ela estudou
sobretudo a "vontade genética de ser global"
e o cosmopolitismo dos empreendedores e gestores que
lideram tais "start-ups".
CRONOLOGIA DA REVOLUÇÃO
DA GESTÃO
1943 - O Programa de Management Avançado
começa na Harvard Business School
1946 - Peter Drucker publica Concept of Corporation,
com base no estudo da General Motors
1949 - Drucker é encarregado de ser o primeiro
professor de management de que há memória.
Iniciou a carreira na Graduate School of Business da
Universidade de Nova Iorque
1950-52 - W. Edwards Deming e Joseph Juran lançam
o movimento da Qualidade no Japão
1954 - Drucker publica The Practice of Management,
o primeiro manual de gestão; Abraham Maslow escreve
"Motivação e Personalidade"
(uma visão radicalmente diferente do que motiva
o trabalhador)
1960 - Douglas McGregor publica The Human Side of
Enterprise, o livro mais emblemático da corrente
das "relações humanas" na empresa;
Ted Levitt fala da "miopia do marketing" na
Harvard Business Review e catapulta o marketing como
uma disciplina séria
1962 - Alfred Chandler escreve Strategy and Structure,
que coloca a estratégia na agenda da gestão
1965 - Igor Ansoff publica Corporate Strategy
e lança o planeamento estratégico
1967 - Philip Kotler escreve Marketing Management
1968 - Frederick Herzberg escreve na Harvard Business
Review o artigo "Como se motivam os empregados"
(o mais solicitado na história da revista)
1969 - Drucker publica The Age of Discontinuity
onde fala do trabalhador do conhecimento
1970 - Alvin Toffler lança "O Choque do
Futuro"
1971 - A Shell cria em Londres o seu grupo de planeamento
estratégico
1973 - E. Fritz Schumacher publica Small is Beautiful
1975 - Ohmae publica no Japão "A Mente
do Estratego" (só traduzido em 1982 em inglês)
1978 - Organizational Learning é publicado
por Chris Argyris e Donald Schon
1980 - Surge A Terceira Vaga de Toffler; Michael Porter
publica Competitive Strategy, que teorizou o
conceito de "vantagem competitiva" (diferenciando
de vantagem comparativa)
1981 - The Art of Japanese Management é
publicado por Richard Pascale e Anthony Athos - este
foi o livro que provocou o choque no Ocidente
1982 - Tom Peters e Bob Waterman publicam "Em
Busca da Excelência", o livro que popularizou
a gestão
1985 - Nasce a ideia de 'cultura de empresa' com Organizational
Culture and Leadership, de Edgar Schein
1990 - Hamel e Prahalad falam das "competências
nucleares" (distintivas e diferenciadoras) de uma
empresa; Michael Hammer lança a ideia da "reengenharia";
Peter Senge publica The Fifht Discipline; e Porter
"A Vantagem Competitiva das Nações"
(que popularizou o conceito de 'cluster')
1991 - Ted Gaebler e David Osborne publicam Reinvneting
Government - sobre a nova reforma da Administração
Pública
1993 - Drucker escreve "A Sociedade Pós-Capitalista"
(a bíblia sobre a economia do conhecimento)
1994 - Charles Handy publica The Age of Paradox
1995 - Ohmae escreve "O Fim do Estado Nação"
1996 - "Economia Digital" é publicada
por Don Tapscott - um novo conceito emblemático
nasce
1997 - Arie de Geus investiga os segredos da longevidade
das empresas em The Living Company
1998 - O ciber-jornalista Kevin Kelly publica New
Rules for the New Economy, o ABC da Nova Economia
1999 - Drucker publica o seu Manifesto aos 90 anos
- Management Challenges for the 21st Century
2001 - Yves Doz orienta o estudo sobre as metanacionais
e publica From Global to Metanational
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
The Management Century (compra
do livro), Stuart Crainer, Booz-Allen & Hamilton
The Ultimate Business Guru Book: 50 thinkers who
made management, Stuart Crainer, Capstone (esgotado)
The Ultimate Business Library: 50 books that made
Management, Stuart Crainer, Capstone (esgotado)
The Ultimate Business Library: 75 books (compra
do livro), Stuart Crainer, Capstone
"As Melhores Práticas de Gestão", Jean
Brilman, Edições Sílabo
Business Minds (compra
do livro), Jorge Nascimento Rodrigues, Stuart Crainer,
Des Dearlove e Tom Brown, Prentice Hall
"O Melhor do século XX", Executive Digest, Dezembro
de 1999, ano 6, nº 62
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