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O mundo à lupa com a Curva
J
A consultora Eurasia Group desenhou
uma metodologia de fácil visualização
para a avaliação do risco dos investimentos
em países emergentes ou em transição
para sociedades e economias abertas. Ian Bremmer, o
fundador da consultora, quer que o comum dos investidores
entenda que a segurança das suas apostas requer
uma boa dose de entendimento sobre geopolítica,
que por vezes não é aquilo que parece.
O livro lançado em Setembro de 2006 com o curioso
título "Curva J" está a gerar
muita polémica nos Estados Unidos.
Jorge
Nascimento Rodrigues,
editor de Gurusonline.tv, Janeiro de 2007
Ian
Bremmer apresenta o livro no Daily Show de Jon
Stewart
Sítio do grupo | Sítio do livro
A fórmula simples de avaliar as oportunidades
e os riscos de um investimento, baseada no "faro"
pessoal ou nas indicações governamentais
de "prioridades", definidas muitas vezes de
um modo errático, não funciona mais. A
geopolítica é suficientemente matreira
para pregar partidas aos empresários que se internacionalizam.
Face a essa maldade dos tempos que correm, Ian Bremmer, um norte-americano
doutorado em Stanford em ciências políticas
e fundador da consultora Eurasia Group em 1998, criou
um modelo visual fácil de entender, baseado numa
curva em "J". Ora, a deslocação
de um dado país ao longo da curva não
é linear nem perene em nenhum dos sentidos (ver
ilustração). "Os macroeconomistas
assumem que a curva evolui sempre num dado sentido,
da esquerda para a direita, e que os países emergentes
fazem facilmente esse trajecto, como se o mercado fizesse
milagres", diz-nos Bremmer.
Uma pergunta a Ian Bremmer
P: Qual é para si o caso mais interessante a
seguir de perto na actualidade?
R: Sem dúvida, a China. É um desafio
incrível. A liderança actual espera que
a China possa crescer tão rapidamente que garanta
uma transição estável e sempre
gerível. Sinceramente, não estou convencido
disso. Sobretudo, se a economia chinesa tiver uma "aterragem
dura" - o que não é de todo improvável,
em função de eventos incontroláveis
como o disparo do preço do petróleo, ou
uma pandemia que imponha restrições à
mobilidade, ou mesmo o rebentar da bolha imobiliária
ou um colapso do sistema bancário. Se a economia
chinesa esbarrar contra a parede, poderemos descobrir
que o país está mais perto de uma instabilidade
perigosa do que imaginamos. A curva J sugere que poderá
muito bem ser o caso.
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"Mas a realidade não é intuitiva.
Há uma relação paradoxal, por exemplo,
entre a estabilidade e a abertura. Há países
estáveis, porque são completamente fechados.
A estabilidade é a capacidade de absorver choques,
e a democracia não é o único factor
determinante dessa competência. E há, também,
regressões na curva", adverte o autor de
'A Curva J: Uma nova forma de entender a ascensão
e queda das Nações', que foi lançado
em Agosto de 2006 nos Estados Unidos.
Consulte o livro "Curva J" Introdução disponível "online"
Casos como o da ditadura salazarista após o fim
da Guerra em 1945 ou o regime totalitário cubano
não deixaram de ter investimento directo estrangeiro
que se sentiu "seguro". Outros "cavalgam"
janelas de oportunidade derivadas da alta do preço
das "commodities" (petróleo e gás
natural, por exemplo) em que se especializaram, como
o Irão teocrático depois da queda do Xá,
ou o retrocesso democrático na Venezuela de Hugo
Chávez ou na Rússia de Putin. "Tentam
puxar a curva para cima, de modo a manterem a estabilidade
com um mínimo de abertura. Como a volatilidade
é grande nessas economias, 'sentem' que não
têm tempo suficiente para evoluir para a abertura",
ironiza o entrevistado.
Iraque no precipício
A transição de um regime totalitário
corre sempre o risco de um período de grande
instabilidade, e mesmo de queda no caos (no "precipício"
da curva, como diz Bremmer). O caso de antologia é
hoje o do Iraque.
Mas poderá amanhã ser o de outros casos
quer de "amigos" do Ocidente (como a Arábia
Saudita ou o Paquistão) ou do 'eixo do mal' (como
a Coreia do Norte ou Cuba). Pelo que Bremmer é
muito crítico sobre a eficácia da teoria
do "regime change" defendida por uma parte
da Administração Bush: "O mundo desenvolvido
não deve desestabilizar militarmente os regimes
autoritários, a não ser que representem
uma ameaça iminente para a segurança nacional
de outros estados".
A história revela casos de transição
para a abertura política e para a globalização
com sucesso, como nos casos de Portugal depois do 25
de Abril, África do Sul depois da queda do "apartheid",
Índia desde as reformas de 1991, e Brasil, que
"absorveu" com toda a naturalidade o "choque"
das vitórias de Lula, refere Bremmer.
O caso mais interessante de seguir, diz o consultor,
é a China e o seu trajecto desde as reformas
de Deng Xiaoping em 1978: "A China tem, de facto,
um dilema. Mesmo em termos de uma estratégia
de grande potência, é indispensável
estabilidade. Pelo que tendemos a encontrar esses países
nas partes mais extremas da curva nos quadrantes do
totalitarismo ou da democracia consolidada".
Em 2001, Bremmer conseguiu criar com a Wall Street
o primeiro índice de risco global que se viria
a transformar no Desix, com o Deutsche Bank. Mais, recentemente,
lançou com a Harvard Business School uma ferramenta
na web designada por "Global Risk Navigator"
(ver artigo no final).
Casos Históricos
(+) Transições bem sucedidas
- Portugal (1974-1976)
- África do Sul (1990-1994)
- Coreia do Sul (1980-1988)
(-) Transições mal sucedidas
- Rússia pós-Gorbachov (regresso ao autoritarismo
com Putin)
- Irão pós-queda do Xá (recuo dos
"moderados" xiitas em 2005)
- Iraque pós-Sadam Hussein (actual situação
de guerra civil) |
De olho no futuro
Transições que poderão gerar caos
- Cuba
- Coreia do Norte
- Arábia Saudita
- Paquistão
O caso em observação
- China (de Deng XiaoPing a 2020) |
Gerir o risco da internacionalização
"on-line"
Escola de Gestão de Harvard
e consultora de geo-política lançam 'Global
Risk Navigator', uma ferramenta para apoiar os gestores
nas suas decisões de investimento directo estrangeiro
ou exportação
Avaliar o grau de risco político nas decisões
de internacionalização nos países
emergentes passou a ser possível na Web. A revista
de gestão da Harvard Business School (Harvard
Business Review) com o gabinete de consultores Eurasia
Group, especializado em geopolítica, lançou
o sítio www.navigaterisk.com,
onde disponibiliza, temporariamente, uma demonstração
gratuita de uma ferramenta de avaliação
mensal do risco.
Dos 24 mercados emergentes seleccionados pelo 'Global
Risk Navigator', curiosamente, nenhum é classificado
de "baixa estabilidade" (alto risco) ou mesmo
de "estado falhado" (risco máximo),
apesar de países como o Irão - um dos
integrantes do "Eixo do Mal" para a Administração
norte-americana - e a Venezuela estarem nessa primeira
lista de observação. Na avaliação
de Setembro, quer o Irão quer a Venezuela manifestaram
um índice de estabilidade moderada, e sem alteração
prevista para Outubro (ver quadros).
Por outro lado, em relação aos 12 mercados
externos emergentes, considerados prioritários
em Portugal, oito têm estabilidade elevada (ver
quadros). No entanto, os mais bem classificados
são dois países da União Europeia
oriundos da outrora chamada Europa de Leste - Hungria
(que lidera o "ranking" dos emergentes) e
Polónia, que inclusive melhorará o seu
nível de estabilidade em Outubro.
Em relação a destinos de investimento
muito falados em Portugal, como no caso do Brasil, a
tendência para Outubro seria de melhoria do indicador
de estabilidade, apesar do relatório da Euroasia
vaticinar uma vitória do recandidato Lula logo
à primeira volta, falhando na apreciação
da capacidade de Geraldo Alckmin forçar uma segunda
volta, como sucedeu no fim-de-semana passado. Também
a China recebe um sinal de melhoria, dada a apreciação
de que o presidente Hu Jintao estaria a consolidar o
seu poder.
Os países de que dependemos em termos energéticos
não conseguem mais do que uma classificação
de "estabilidade moderada" e um deles poderá
mesmo passar para "baixa estabilidade" - a
Nigéria, onde 40% da produção está
permanentemente em risco, em virtude da situação
de guerra civil no Delta do Níger.
O conceito de risco utilizado nesta ferramenta não
é o comum nas análises financeiras e económicas,
nem nos comentários políticos correntes,
muitas vezes escritos na base de reacções
à flor da pele. O responsável da Eurásia,
o analista geo-político e geo-económico
Ian Bremmer, um doutorado em ciências políticas
da Universidade de Stanford, refere que o índice
de estabilidade que a sua consultora usa baseia-se na
avaliação da capacidade estrutural dos
governos e dos Estados em lidarem com choques, que surgirão
inesperadamente, sem pré-aviso. Um outro indicador
de estabilidade que esta firma sedeada em Nova Iorque
comercializa é elaborado em parceria com o Deusche
Bank.
Quadro 1
5 Melhores*
Em Setembro 2006 Tendência
para Outubro 2006 |
| Hungria |
sem alteração |
| Coreia do Sul |
sem alteração |
| Polónia |
Melhoria |
| Bulgária |
sem alteração |
| Argentina |
sem alteração |
| Turquia |
sem alteração |
| Nota: * Alta estabilidade |
| 5 Piores* |
| Nigéria |
Vai piorar |
| Irão |
sem alteração |
| Paquistão |
sem alteração |
| Venezuela |
sem alteração |
| Indonésia |
sem alteração |
| Nota: * Estabilidade moderada |
Quadro 2
| Avaliação
de risco em 12 mercados emergentes "prioritários"
para Portugal |
|
País
|
Em Setembro
2006
|
Tendência
Outubro 2006
|
| Argélia |
Alta estabilidade (ae) |
Vai piorar |
| Argentina |
ae |
sem alteração |
| Brasil |
ae |
Vai melhorar |
| China |
ae |
Vai melhorar |
| Hungria |
Líder no "ranking" |
sem alteração |
| Índia |
ae |
Vai piorar |
| México |
ae |
sem alteração |
| Polónia |
3º no "ranking" |
Vai melhorar |
| Rússia |
ae |
sem alteração |
| Arábia Saudita |
ae |
sem alteração |
| Venezuela |
Estabilidade moderada |
sem alteração |
|