Os que inovam uma só vez
- os «one shot»
Os novos grupos nos negócios da Web são
revolucionários de um só tiro. Apesar
da azáfama de diversificação em
que estão, não voltarão à
dinâmica das origens. E podem apanhar alguns vícios
já há muito diagnosticados, diz Peter
Cohan.
Jorge
Nascimento Rodrigues,
editor de www.gurusonline.tv, Janeiro 2007
O Manifesto da "Manteiga de Amendoim" no The Wall Street Journal O debate na Wharton School
A polémica sobre 'diversificar ou não
diversificar' voltou a ganhar calor nos meios da gestão
depois de ter sido divulgado pelo The Wall Street Journal
(em Novembro de 2006) um memorando interno de um vice-presidente
do Yahoo!, que ficou conhecido pelo manifesto 'manteiga
de amendoim'.
Algumas escolas de negócios pegaram no tema,
com destaque para a idosa Wharton School da Universidade
da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Este tipo
de debate é cíclico no management; a novidade
é que, agora, incide sobre o segmento das empresas
ainda jovens, nascidas com as oportunidades de negócio
da Web, desde os anos 1990.
O manifesto de Brad Garlinghouse, que continua no posto
de vice-presidente, teve até direito a entrar
na wikipedia e a sua imagem da manteiga de amendoim
ganhou popularidade: a diversificação
para novos negócios, mesmo que adjacentes, fugindo
à focalização, é como estender
manteiga de amendoim por tudo quanto é sítio.
E, ironia, Brad, e ao que parece muita gente no Silicon
Valley, detesta esse tipo de manteiga, a acreditar na
vaga de "posts" em blogues que gerou.
O que dizia o Manifesto da Manteiga
de Amendoim
Mais a sério, Brad falava da necessidade de
refocalização no Yahoo!, de "destruir
a [organização em] matriz" e de "liquidar
as redundâncias" e silos dentro da empresa
(e, claro, de um corte de 15 a 20% dos efectivos). Haveria
que acrescentar que a empresa nascida em Fevereiro de
1994 num reboque no "campus" da Universidade
de Stanford, tem estado num frenesim de aquisições
de "start-ups" e de iniciativas que vêm
surgindo no que se designa hoje por web 2.0 (como foram
os casos da Flickr e da del.icio.us).
Não se sabe se em reacção ou não
ao burburinho criado pelo manifesto, a Yahoo!, no passado
Dezembro, decidiu proceder a uma reestruturação
em três blocos operacionais - dois dirigidos aos
seus segmentos de negócio e o terceiro ligado
às suas competências tecnológicas.
É um modelo conhecido de divisão em unidades
internas de negócio distintas, que, muitas vezes,
fruto da fatiga de ter tudo dentro do mesmo corpo, acaba
por redundar, no futuro, na criação de
"spin offs", de empresas autónomas.
Teorias para todos os gostos
A aplicação de dinheiro em aquisições
multimilionárias levanta sempre a ira de muitos
accionistas e remete para a discussão de como
aplicar os recursos gerados ou adquiridos em bolsa,
se no "core" do negócio, se em oportunidades
que surgem no quadro de uma estratégia de projecção.
Os teóricos da gestão dividem-se e mostram
exemplos que dão para os dois lados: desde os
conglomerados de A a Z que se aguentam no tempo até
às diversificações que morrem do
que em geopolítica se chama de "sobre-extensão".
O veredicto da estratégia só mesmo "a
posteriori", dizem, por seu lado, os que lavam
as mãos como Pilatos.
Alimentadas pelas modas
O debate na Wharton alargou-se do manifesto referido
para as decisões tomadas pela Amazon.com em alugar
a sua própria infra-estrutura computacional e
pela desmultiplicação em novas iniciativas
e aquisições pelo Google.
No entanto, Peter Cohan, um analista dos negócios
baseados em tecnologia, alega que o debate central não
está bem colocado. As empresas que nasceram com
a vaga da Web teriam uma particularidade: nascem, emergem,
crescem e morrem em função de modas. "Logo
que a vaga de procura para uma moda nova se esgota,
estas empresas têm muita dificuldade em gerar
as vagas seguintes de inovação. As novas
vagas sempre surgem de novas 'start-ups'", refere-nos.
É uma espécie de "pecado original".
Por isso, conclui, frustrando muito entusiasta, que
"as empresas Internet dão um tiro inicial
até ao estrelato e os esforços para diversificar,
a partir de certa altura, tentando manter o clímax
bolsista e segurando os talentos, falham inevitavelmente".
O PECADO ORIGINAL "Não há diversificação
que restaure a dinâmica original"
A conclusão é provocatória - os
grandes "heróis" dos negócios
nascidos com a Web são atiradores de "um
só tiro"; são "one shot"
na inovação, em geral. "Depois desse
tiro inicial, sobrevivem e crescem baseados em larga
medida na inércia e não há diversificação
adjacente, por maior que seja, que lhes restaure o seu
estado inicial, a sua dinâmica original. Para
isso teriam de fazer, de novo, uma ruptura, e aparecer
com uma nova ideia que rapidamente se tornasse muito
popular", diz o analista Peter Cohan, sediado em
Boston, e autor de diversas obras sobre inovação
nos negócios de base tecnológica. A ruptura,
diz Cohan, acaba por ser feita por novas "start-up"
que emergem com novos protagonistas ou com gente genial
que acaba, a dado passo, por sair dessas empresas. A
opinião dele está a contracorrente - apesar
da corrida sem parar da Amazon.com, do Yahoo! e, particularmente,
do Google, ele não se deixa impressionar com
o frenesim diversificador.
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