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O guru hoteleiro
Uma conversa com Chip Conley, o visionário
dos hotéis-boutique do Silicon Valley, que se
tornou, inesperadamente, num autor consagrado de management
Jorge
Nascimento Rodrigues,
editor de gurusonline.tv, com Chip Conley, Setembro
2006
Ilustração por Paulo
Buchinho
Livros de Chip Conley (disponíveis na Amazon.com):
The Rebel Rules (2001) | Marketing
that Matters (2006)
Sítio da cadeia Joie de Vivre
"Os livros que escrevo sobre temas de gestão
são o reflexo da evolução natural
da minha própria aventura empresarial",
diz-nos Chip Conley, 46 anos, conhecido como o maior
hoteleiro independente do Silicon Valley, especializado
em hotéis-boutique.
Chip vai a caminho da terceira obra de management,
que intitulou 'Peak', justamente pico, como balanço
da sua experiência de empreendedorismo e de gestão
da cadeia hoteleira Joie de Vivre (fez questão
de a criar com um nome em francês, pela sua paixão
pelo espírito de atmosfera de café parisiense)
que iniciou há 19 anos num gueto colado ao centro
administrativo e político de São Francisco.
'Peak' sairá em Setembro do próximo ano
(editado pela Jossey Bass, 2007), e concluirá
uma trilogia que começou com um título
de choque, no meio do rebentar da "bolha"
das "dot-com" (2001): 'The Rebel Rules' -
as regras dos rebeldes, que continua a ser a forma como
Chip se encara a si próprio. "Continuo a
orientar a minha vida empresarial com esse elemento
de risco que nos puxa pela adrenalina - eu sou mesmo
assim. Mas, obviamente, que a história mostrou
os riscos inerentes a certo tipo de rebeldias",
ironiza.
Horror ao consumidor
No mês passado lançou um livro que tem
a ver com outra das suas paixões - a responsabilidade
social. Chip colabora em várias iniciativas na
cidade e na Baía de São Francisco e transmite
essa visão "social" para o negócio,
no que é hoje uma tendência da moda. "Mas
não vou por modismos. Sempre agi assim por instinto.
O livro que escrevi agora 'Marketing that Matters' [Marketing
que conta] é uma espécie de manual para
o terreno, para empreendedores terra-a-terra como eu,
para ajudar as empresas a pôr em prática
uma abordagem do marketing anti-clássica, centrada
numa estratégia socialmente responsável".
Por isso, um dos pontos de honra deste livro de Chip,
lançado em Setembro de 2006, é um horror
ao termo 'consumidor' e ao consumismo. "Se eu abordo
o meu cliente como um consumidor que me torna a mim
um produtor, cheira-me a que isto tem pouco de humano
ou orientado para a relação. Creio que
o termo desumaniza esta relação estratégica
fundamental. Os clientes não querem momentos
puramente transaccionais. Querem que construamos uma
relação com eles", explica o guru
hoteleiro. Foi nessa base que ele montou intuitivamente,
com 26 anos, o seu negócio hoteleiro, apesar
de trazer na bagagem um MBA em Stanford tirado em 1987
e um início de carreira como analista imobiliário
da Morgan Stanley.
Fanático da segmentação
Outra das máximas de Chip Conley é esta:
"Não estou interessado em criar produtos
para satisfazer o gosto do "mainstream". Decididamente
entusiasmo-me com os nichos". Foi com este espírito
que ele desenvolveu a cadeia hoteleira, de restaurantes
e de spa com a marca Joie de Vivre, que já conta
com 40 unidades na região de São Francisco,
entre hotéis-boutique de cidade e suburbanos,
motéis-boutique e até um "acampamento-boutique"
(em San Mateo, na Baía).
Com dinheiro emprestado pelo pai, Chip, comprou em
1986 o Caravan Motor Lodge, um mau hotel num sítio
pouco recomendável, perto do centro de São
Francisco, e transformou-o no The Phoenix, que se tornaria
a Meca da cultura do rock'n'roll. Por lá pernoitaram
bandas de roque e VIPs da música e do cinema,
como David Bowe, Sinead O'Connor, Linda Ronstadt, Keanu
Reeves, Courtney Love e Faye Dunaway. Timothy Leary,
o guru psicadélico, que morreu em 1996, também
era um "habitué".
O conceito foi inspirar cada hotel num dado segmento
de clientes, nos seus gostos e tendências culturais.
E juntou um ingrediente absolutamente original na definição
do visual: associar ao estilo de cada hotel uma revista
da especialidade e cinco palavras-chave que a identificam.
"Cinco adjectivos que falam ao gosto dos clientes
- desde os quartos, a decoração às
próprias fardas do pessoal", diz Chip. Daí
ser, também, um fanático dos detalhes.
No caso do pioneiro The Phoenix, a "guia"
foi a revista Rolling Stone. Outras unidades dedicam-se
a empresários e quadros, terceira idade ou pacientes
em convalescença (por exemplo, de operações
estéticas).
Não é por acaso que lhe atribuíram
o prémio de 'Marketer Guerrilheiro' do ano, 'e-Marketer
do mundo' e Empreendedor Imobiliário do ano do
Norte da Califórnia.
A Joie de Vivre conta com cerca de 1000 empregados
(que dispõem de uma Universidade interna) e factura
mais de 150 milhões de dólares por ano.
O seu principal veículo de marketing é
o de boca-em-boca das comunidades que cada hotel foi
criando em torno do seu conceito original. "Não
gasto mais de 50 mil dólares por ano em marketing
clássico", conclui Chip Conley.
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