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YVES DOZ E JOSÉ SANTOS (INSEAD) A
internacionalização que nasceu nos sítios errados O
fenómeno da metanacionalização - a nova "buzzword"
a tomar nota A nova palavra de ordem: Pensar local, agir global! (exactamente,
caro leitor, é o contrário do que você aprendeu) Um
verdadeiro manifesto para todas as empresas que pretendem ser globais mesmo tendo
surgido em regiões sem "clusters", aparentemente condenadas a
serem zero no mundo do modelo de "diamante" do eminente professor Michael
Porter. Um desafio às multinacionais tradicionais para alterarem a sua
estratégia de internacionalização. Mais importante do que
"exportar" a nossa afirmação, é saber "importar"
o conhecimento onde ele estiver e "misturá-lo" para gerar inovação.
Jorge Nascimento Rodrigues para a revista
Executive Digest (edição de Agosto 2002) com Yves Doz e José Pinto dos Santos. Versão completa. 2002 O Livro «From Global to Metanational» | O caso Nokia Metanacionais portuguesas | Artigo anterior sobre José Santos Partindo do caso
da Nokia nos anos 90, uma equipa de investigadores do INSEAD dirigida pelo Professor
Yves Doz e em que participa o investigador português José Santos,
descobriu um novo tipo de empresas internacionais que nasceram longe dos "clusters"
tradicionais de sucesso, que se afirmaram inesperadamente e para surpresa das
multinacionais incumbentes. A esta nova geração de "seres
anómalos" baptizaram-na de "metanacionais". É uma
mensagem optimista e motivadora para todas as empresas com ambição
global que nasceram nos sítios "errados", incluindo em Portugal,
onde já temos casos "candidatos" a esta nova geração.
«Países, empresas, e pessoas que são pequenas, ou que
estão isoladas das capitais tradicionais das indústrias globais,
têm aqui uma oportunidade», afirma-se em «From Global to Metanational
- How companies win in the knowledge economy», editado pela Harvard Business
School Press. As metanacionais inovam a partir da aprendizagem que fazem
onde haja bolsas de saber em qualquer ponto do mundo. Não projectam a sua
imagem; pelo contrário, "aspiram" o saber onde ele exista, misturam-no
com outros saberes, e inovam. Andam à descoberta de saber e procuram alavancá-lo.
É o percurso inverso ao tradicional da multinacional, a tal ponto que o
paradigma da moda dos anos 90 de «pensar global, agir local», foi
invertido para «pensar local, agir global». Curiosamente, a
investigação revelou que os exemplos das metanacionais estão
mais na Europa - com casos como a Nokia, a Airbus, a SAP, a PolyGram (hoje parte
da Vivendi), a STMicroelectronics, a Business Objects e a Logitech - e na Ásia
(Shiseido, Acer) do que nos Estados Unidos, onde a lógica da multinacional
tradicional predomina, mesmo em empresas que todo o mundo admira e que foram inovadoras
ao longo do tempo, como a Intel, a GE, a Microsoft, a Yahoo!, a Amazon.com e a
Dell. Mas as multinacionais dedicam-se a "projectar" o seu conhecimento,
a sua cultura de origem para o mundo, mesmo quando se esforçam seriamente
em "localizar". Em contraste, as metanacionais inovam a partir
da aprendizagem que fazem onde haja bolsas de saber em qualquer ponto do mundo.
As metanacionais não projectam a sua imagem; pelo contrário, "aspiram"
o saber onde ele exista, misturam-no com outros saberes, e inovam. As metanacionais
andam à descoberta de saber e procuram alavancá-lo. É o percurso
inverso ao tradicional, a tal ponto que o paradigma da moda dos anos 90 de «pensar
global, agir local», foi invertido para «pensar local, agir global».
Os autores do livro não pretenderam propagandear "casos de
sucesso" para serem replicados. «O livro é, pelo contrário,
um manifesto para os que querem criar um novo tipo de multinacional que pretende
vencer na economia do conhecimento global de hoje», refere-se no prefácio.
A mensagem foi muito bem acolhida pelo The New York Times em final do ano passado.
A aventura do tema "metanacional" começou quando Jorma
Ollila, da Nokia, desafiou uma equipa do INSEAD a investigar o que seria uma "multinacional
da nova era", de modo a ajudar a então emergente empresa finlandesa
a tornar-se numa firma global. A equipa foi liderada por Yves Doz, um dos
gurus europeus da gestão, e incluiu José Pinto dos Santos, um português
também professor do INSEAD e da Universidade Católica Portuguesa
no Porto, e Peter Williamson, também daquela escola sediada em Fontainebleau,
perto de Paris. Os três assinam a autoria do livro que está a intrigar
os gestores internacionais. Falámos com Yves Doz e José Santos
nas vésperas da sua partida para Singapura, onde aquela escola francesa
tem um novo "campus" para a Ásia. O vosso livro
tem por "alvo" principal quem? Os destinatários da mensagem são
sobretudo os líderes das "start-ups" que nasceram "globais"
nesta última década ou as multinacionais incumbentes?
Bom,
dirigimo-nos aos dois segmentos de leitores. Mas provavelmente, estamos mais voltados
para levar a mensagem às multinacionais tradicionais ou às empresas
internacionais "multidomésticas". Mas o livro, de facto, revela
o que descobrimos na nossa investigação - as "start ups"
ou outras empresas que são realmente novas em termos de internacionalização,
e que revelaram características de uma nova internacionalização,
que designámos por "metanacional". Porque é
que escolheram esse termo bizarro de "metanacional"? Escolhemos
o prefixo "meta" no sentido de algo que está para além
de. As metanacionais não têm os países ou as nações-estado
como sua dimensão fundamental. A globalização para elas não
é "exportar" o seu know-how do país de origem para outros
mercados no globo. Trata-se de "pescar" eficientemente o conhecimento
num "pool" global. A evidência empírica
mostra que à medida que a globalização se intensifica e que
a tecnologia continua a reduzir o custo da distância, a probabilidade de
sucesso com uma estratégia de internacionalização tradicional
diminui de dia para dia. Mas qual é a diferença com
o conceito de «empresas que nasceram globais» que a escola finlandesa
das «born global» vem estudando e analisando, inclusive pegando no
mesmo vosso exemplo da Nokia? É uma classificação
diferente. As 'born global' são firmas que se tornam internacionais num
curto espaço de tempo - por exemplo, 30% ou mais das vendas em mercados
externos em apenas um ano de operações. Contudo, uma 'born global'
tanto pode ser uma metanacional como uma multinacional. Mas há
algo de errado no processo tradicional gradualista de internacionalização
que muitas empresas seguiram nos anos 70 e 80 e que continuam a seguir? Não
há nada de errado com esse processo - desde que a empresa em causa consiga
encontrar no seu próprio país (ou seja, se tiver o tal 'diamante'
nas traseiras) tudo aquilo de que precisa para alcançar vantagem competitiva
global. No caso da electrónica de consumo e nos semicondutores isso aconteceu
nos anos 70 e 80 com as multinacionais tradicionais a liderarem o caminho. Contudo,
a evidência empírica mostra que à medida que a globalização
se intensifica e que a tecnologia continua a reduzir o custo da distância,
a probabilidade de sucesso com uma estratégia de internacionalização
tradicional diminui de dia para dia. Se tiver sorte de
nascer num "cluster" local, óptimo. O "cluster" tradicional
não está errado, mas pode ser limitativo. Veja-se o risco de só
ter os sentidos colocados num "cluster" mesmo que seja de ponta - foi
o que levou a Motorola a perder a oportunidade para a desconhecida Nokia na Finlândia.
Então, nascer no "sítio errado" e poder
ter sucesso internacional significa que o conceito tradicional de Michael Porter
sobre a importância decisiva de se estar inserido num "cluster"
local - mesmo que seja num "cluster" de inovação, como
o professor de Harvard agora refere ultimamente - já não dá
vantagem estratégica? Se se tiver a sorte de nascer num "cluster"
local, óptimo. Não estamos a dizer que o "cluster" tradicional
está errado. O que nós salientamos é que o saber está
cada vez mais disperso pelo mundo e que, por isso, não está num
sítio só, por mais famoso que seja. Donde, apoiar-se só em
"clusters" locais é limitativo. Mas se se tiver a sorte de se
nascer no sítio "certo", o que há que fazer é ultrapassar
a desvantagem de se ficar só por ali. Veja o risco de só ter os
sentidos colocados num "cluster" mesmo que seja de ponta - foi o que
levou a Motorola a perder a oportunidade para a desconhecida Nokia na Finlândia.
O que é que mudou na teoria da vantagem competitiva? É
claro hoje em dia que a escala já não é mais fonte de vantagem
competitiva em quase todas as indústrias. Há hoje uma melhor compreensão
da dinâmica da concorrência - bem como a percepção de
que mais importante do que uma 'posição' no mercado é a qualidade
de recursos que a firma detém. A fonte-chave da vantagem competitiva sustentada
é o valioso conhecimento tácito específico da empresa. Isso
significa que os esforços para recriar "Silicon Valleys" noutros
locais são em vão? O que acho é que recriar o
"cluster" é caríssimo ou quase impossível. Quando
muito "transferem-se" pedaços do ambiente. Creio que é
mais importante transformar a empresa do que a localização. É
essa via de transformação da estratégia da empresa que exploramos
no nosso livro. A Amazon.com levou vários anos
a começar a perceber o potencial dos mercados estrangeiros em que entrou
num ápice, e fê-lo de um modo convencional: sequencialmente, país
por país, começando com uma subsidiária no Reino Unido. O
que é que há aqui de novo? Nada! Mas o fenómeno
é claramente típico de indústrias de alta tecnologia? Não,
encontrámos exemplos em muitas indústrias, incluindo os cosméticos,
a música e a comida - tal como na biotecnologia, no software e nos semicondutores.
O que conta é a intensidade em saber do produto, do serviço ou da
solução. Como a 'alta tecnologia' é, por regra, muito elevada
em intensidade tecnológica, é mais provável observar metanacionais
nessa área. Outro facto interessante é que a maioria dos
casos de metanacionais que citam são europeias. As metanacionais são
um produto tipicamente europeu? É claro que há uma tendência
para os académicos estudarem a realidade mais próxima. Os investigadores
nos Estados Unidos tenderão a olhar para as firmas americanas. O tamanho
do mercado doméstico dos EUA é tal que muitas empresas nem sequer
atingem uma escala nacional, quanto mais internacional. Assim sendo, para quê
ser 'born global'? (Contudo, note-se que há referências a start-ups
globais nos EUA no início dos anos 90). Mas é só
o problema do tamanho do mercado interno norte-americano? Não
- a economia americana tem uma diversidade tal e uma competitividade que é
a base de imensas multinacionais que ganham escala mundial em muitas indústrias.
Sendo assim, para quê ser metanacional? Mesmo casos de "estrelas"
da Nova Economia como a Amazon.com não são candidatas ao metanacionalismo?
Não. Aliás, o caso da Amazon é notável:
apenas depois de um mês de operações, já exportava
para 45 países - creio que isto é um recorde que muito dificilmente
será batido. Mas a empresa levou vários anos a começar a
perceber o potencial de tais mercados estrangeiros, e fê-lo de um modo convencional:
sequencialmente, país por país, começando com uma subsidiária
no Reino Unido. O que é que há aqui de novo? Preferimos
pensar numa rede de excelência com diferentes contribuições
possíveis no mundo, incluindo em sítios aparentemente "errados".
Preferimos dar a ênfase na conectividade entre todas as "bolsas"
de saber, estejam onde estiverem. O modelo da ABB entusiasmou imensa
gente há uns anos atrás. A solução "federalista"
concebida por Percy Barnevick parecia ser a receita para as multinacionais. No
vosso livro falam das limitações da solução. Porquê?
O problema que surgiu com o "federalismo" da ABB foi o choque
entre as empresas locais que queriam continuar a ser muito locais e, ao mesmo
tempo, as necessidades de racionalização global. Na Alcatel, também,
se viveu um problema similar. Eu estou a analisar este problema do ponto de vista
do conhecimento, do saber, em que o problema reside, neste tipo de soluções,
numa grande descentralização do saber, e, por vezes, numa enorme
fragmentação. Não é fácil superar esta contradição
- creio que um bom modelo de mudança entre multinacionais, no sentido de
superar as fraquezas do federalismo, tem sido o Citibank ou mesmo a Nestlé,
com a criação da Nestec, uma empresa à parte que coordena
a inovação. Muitas multinacionais, em particular
americanas, têm feito um enorme esforço de "localização"
de Centros de Excelência ou de Competências na Europa. E têm
tirado um enorme efeito de marketing disso. É um caminho convincente? O
problema que tenho em relação a esse conceito é a etiqueta
- pode dar a ideia de que só aí (onde estão esses centros
de excelência ou de competências) é que há conhecimento
de excelência. Nós preferimos pensar numa rede de excelência
com diferentes contribuições possíveis no mundo, incluindo
em sítios aparentemente "errados". Preferimos dar a ênfase
na conectividade entre todas as "bolsas" de saber, estejam onde estiverem.
A partir de um episódio no Japão ocorreu-nos
que o que era importante era "aspirar" o saber local onde ele exista
e misturá-lo com outros saberes locais, dando-lhe uma nova expressão
e dimensão global. Um dos "choques" que o leitor
apanha ao ler o vosso livro, é que resolveram virar de pernas para o ar
a célebre máxima dos anos 90 da 'glocalização' - ou
seja pensar global e agir local. O segredo competitivo é, como referem,
trazer o pensar local para uma dimensão global? Vou-lhe contar
um episódio do início do trabalho de consultoria que fizemos com
a Nokia, onde esta ideia de metanacional nasceu e onde percebemos que o paradigma
tinha de ser invertido. Numa das reuniões, no Japão, um dos participantes
disse que era necessário "inserir" a Nokia no Japão, passar
do global ao local, ao que todos os outros reagiram de imediato dizendo que o
que era necessário era "meter" o Japão na Nokia. A partir
deste episódio ocorreu-nos que o que era importante era "aspirar"
o saber local onde ele exista e misturá-lo com outros saberes locais, dando-lhe
uma nova expressão e dimensão global. Qual é a
principal diferença da vossa abordagem em relação à
tese das "transnacionais" de Ghoshal e Bartlett publicada em "Managing
Across Borders", em 1989, livro que será reeditado, actualizado, este
ano? Creio que esses nossos dois amigos colocam as questões
certas, mas não deram a resposta correcta. Mas o nosso trabalho está
na mesma tradição de investigação da deles. O que
nós fazemos de diferente são duas coisas: acentuamos a questão
da aprendizagem global a partir da fragmentação do saber de hoje,
e dizemos claramente que é preciso separar a parte de mobilização
do saber da parte operacional das actividades internacionais. O cosmopolitanismo
é um traço psicológico essencial para os gestores e empreendedores
metanacionais? Sem dúvida. Um dos atributos que verificámos
no nosso estudo foi esse - esses gestores tinham andado à volta do mundo
e conheciam-no bem. Criaram uma rede de conhecimentos em vários países,
e não têm problemas com culturas diferentes. Em muitos casos, esse
aspecto foi desenvolvido numa carreira em alguma multinacional tradicional. Por
exemplo, quatro dos 16 gestores de topo da STMicroelectronics foram gestores de
empresas como a Motorola, Texas Instruments, National Semiconductors ou Toshiba.
Noutros casos, os empreendedores metanacionais estudaram fora durante algum tempo
- como no caso dos fundadores suíço e italiano da Logitech que se
conheceram quando estudaram em Stanford, em Palo Alto. PORTUGAL
NA VAGA
Casos como a Altitude Software no software ou a Euronavy nas
tintas ecológicas ou a Swear-Shoes/Calzeus no calçado são
prováveis candidatas a metanacionais nascidas com bilhete de identidade
português. Será interessante estender o vosso estudo a novas empresas
nascidas "erradamente" em Portugal? Certamente que sim. Portugal
é um exemplo perfeito de um país que desenvolveu certas capacidades
que podem ser fonte de grande desenvolvimento - se, e só se, forem integradas
com outras capacidades e outros mercados que existem noutros lados do mundo. Se
estamos à espera de ter 'diamantes' [porterianos] em Portugal não
vamos longe. Não estudei, ainda, os casos que cita, mas conheço
bem o caso dos moldes e empresas como a Iberomoldes, que cresceram até
se tornarem reconhecidas no mundo - mesmo se muitas das tecnologias e dos mercados
de que necessitavam para atingir excelência global estavam longe, aliás
bem longe! Isso não as impediu de aceder a esses "pedaços"
de conhecimento situados em locais distantes para os "fundir" com as
suas próprias competências.
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