Martín Escobari,
consultor de São Paulo, revela o 'Made in Brasil'
na gestão
Os truques do Jogo de Cintura
Management Made in Brazil
Jorge
Nascimento Rodrigues,
editor de Gurusonline.tv, Dezembro 2004
Ilustração de Paulo
Buchinho
Publicado em versão
reduzida na secção "Buzzword"
da revista portuguesa Executive Digest (Novembro 2004)
Entrevista com
Martin Escobari | Para saber
mais | Martin ToolBox
Se os portugueses são elogiados internacionalmente
pela sua capacidade de improviso, os brasileiros estão
a ficar famosos pelo jogo de cintura, uma arte de manobra
estratégica onde dão cartas sobre gestão
em meio turbulento e de alto risco para o investimento.
O "jogo de cintura" brasileiro parece ter
segregado, na prática da gestão, um conjunto
de princípios - 10, pelo menos, alguns dos quais
dão por nomes bizarros à primeira vista
(ver caixa).
Depois de lidos, parecem o ovo de Colombo - são
uma mistura de paciência, antecipação,
pragmatismo, cabeça fria, flexibilidade e agilidade.
Juntam a sabedoria da formiga à do pescador submarino,
para enfrentar uma realidade que é sintetizada
nesta metáfora: "É como um piloto
correndo em pista desconhecida com visibilidade limitada".
A promoção internacional deste Management
Made in Brasil deve-se à iniciativa académica
de Martín Escobari, um paulista de 33 anos, que
foi aluno do professor da Harvard Business School, Donald
Sull, um entusiasta do estudo dos segredos de gestão
dos empresários e executivos nos países
emergentes ou em transição para as economias
de mercado.
Martín e Donald fizeram um trabalho de campo
no Brasil durante dois anos, que conduziu à publicação,
este ano, de "Made in Brasil" (primeiro na
versão em português, e até final
do ano em inglês), em que se sistematizam os truques
revelados por um lote dos melhores - 10 empresas brasileiras
que sobreviveram à década "tumultuada"
dos anos 1990.
MBA para o lixo
"Trabalhando no Brasil, depois do meu regresso,
pude notar como pouco do que aprendi na Escola de Negócios
de Harvard era aplicável ao dia-a-dia do meu
país", confessa-nos Martín, que,
tendo-se licenciado em Economia na Universidade de Harvard,
em Cambridge, Estados Unidos, tirou, depois, um MBA
na Harvard Business School, em Boston.
A pior asneira que se pode cometer
num país como o Brasil é "importar
conceitos de gestão que somente se aplicam em
ambientes estáveis no plano macro-económico
e legislativo, ou em contexto de turbulência tecnológica,
como nos EUA", adverte o consultor paulista.
Martín é um "estrangeirado"
que trabalhou no The Boston Consulting Group em Nova
Iorque e que regressado ao Brasil se meteu em duas aventuras,
no período de euforia "dot.com", que
resultaram, sendo hoje "case studies" - foi
fundador da empresa brasileira de comércio electrónico
para o consumo Submarino.com,
e associou-se aos argentinos da Officenet para a criação
do ramo brasileiro desta plataforma de comércio
electrónico para empresas.
Mas a inspiração para o seu "Made
in Brasil" foi buscá-la, no entanto, às
empresas de pedra e cal, cujos segredos lhe valem hoje
uma mais valia na sua empresa de consultoria estratégica
Orange Advisory, sediada em São Paulo.
O livro tem tido boa receptividade nos expatriados
que trabalham no Brasil e nos gestores de outros países
emergentes. "O contexto brasileiro e latino-americano
tem particularidades que devem ser entendidas profundamente",
diz Martín. A pior asneira que se pode cometer
num país como o Brasil é "importar
conceitos de gestão que somente se aplicam em
ambientes estáveis no plano macro-económico
e legislativo, ou em contexto de turbulência tecnológica,
como nos EUA", adverte o consultor paulista.
Com a crescente onda de investimento directo estrangeiro
para Terras de Vera Cruz, esta obra pode funcionar como
uma pequena bíblia de introdução
aos meandros da gestão no país. Sobretudo
para os executivos estrangeiros que queiram perceber
como se "dribla" o "custo Brasil",
uma designação dada pela Confederação
Nacional da Indústria brasileira ao conjunto
de barreiras naquele mercado: "choques cíclicos
provocados pelos políticos, taxas de câmbio
voláteis, disponibilidade esporádica de
capitais, política industrial inconsistente ou
caprichosa, taxas de juro e de inflação
imprevisíveis, burocracia e corrupção,
carga tributária elevada, economia informal muito
elevada", explica Escobari.
Extensão do conceito
Mas o alcance da obra vai mais longe, segundo Martín
e Donald. O conceito pode ser estendido a países
em transição para economia de mercado
ou emergentes. Neste sentido, Donald Sull vai lançar,
ainda este ano, com Yong Wang a obra "Chinese Champions:
Managing Turbulence in the transition to a market economy",
em que a mesma metodologia de investigação
foi seguida e em que muitas conclusões são
similares.
"A grande conclusão é que as estratégias
que usamos no Brasil para ter sucesso num ambiente de
incerteza são idênticas às que funcionam
em qualquer situação turbulenta, seja
na China, no Leste da Europa em transição,
ou em certas indústrias em transformação",
refere o nosso interlocutor, que arrisca mesmo uma conclusão
mais ousada: "Os ambientes turbulentos de negócio
deixaram de ser excepções, começam
a tornar-se regra num ambiente globalizado".
"A grande conclusão
é que as estratégias que usamos no Brasil
para ter sucesso num ambiente de incerteza são
idênticas às que funcionam em qualquer
situação turbulenta, seja na China, no
Leste da Europa em transição, ou em certas
indústrias em transformação",
refere Martín.
Pelo que, mesmo que o leitor não esteja a pensar
investir no Brasil, na China ou no Leste Europeu, estes
truques estratégicos podem ser úteis na
sua própria terra. O livro não é
só indispensável para globalizadores e
internacionalistas - mas para todos os que sentem que
vivem no meio do redemoinho.
Duas Paixões
O livro centra-se em 10 casos que "deram a volta"
na última década no Brasil: AmBev (cervejas),
Embraer (aeronáutica), Pão de Açúcar
(distribuição), Itaú (banco), Votorantim
(conglomerado familiar com base no cimento), Natura
(cosmética), Aracruz (pasta e papel), Sabó
(componentes de automóvel), Promon (integrador
de sistemas) e América Latina Logística
(caminhos de ferro privatizados). Alguns são
hoje marcas multinacionais indiscutíveis.
Nota-se que o autor nutre uma paixão particular
por dois casos - a Embraer e a AmBev (hoje InBev, depois
da integração com a Interbrew belga).
Pela Embraer, a que dedica todo um capítulo
do livro (o quarto) - uma empresa ainda recentemente
destacada pelo Financial Times (edição
de 15 de Setembro de 2004) como exemplo do novo Brasil
multinacional, que depois de privatizada em 1994 conquistou
40% do mercado mundial de jactos regionais.
E pela AmBev-Companhia de Bebidas das Américas,
que resultou da Cervejaria Brahma - uma cervejeira de
um grupo familiar que seria adquirida por um grupo financeiro
em 1989 -, da absorção, mais tarde, da
sua concorrente (Antarctica Paulista), e da integração
de uma aliança estratégica com a Quilmes
argentina. A AmBev era em 2003 a maior cervejeira da
América Latina e a sexta no mundo, estando cotada
no NYSE. Já este ano, a AmBev celebrou um acordo
estratégico com a Interbrew, a multinacional
belga (conhecida pelas marcas Stella Artois e Beck's),
através de uma operação em Agosto
de 5,8 mil milhões de dólares de troca
de participações através da Holanda.
Deste casamento nasceu a InBev, considerada a empresa
número um do sector à escala mundial em
volume de produção.
Fobia revolucionária
O caso da Ambev é paradigmático de um
erro ideológico - que convém os investidores
estrangeiros no Brasil não cometerem. Explica
Martín: "Em 1985, J.P. Leman decidiu pescar
uma empresa de bens de consumo com uma boa marca. Ora,
em 1989, a família dona da Brahma estava preocupada
com a possível eleição revolucionária
de Lula e resolveu colocar à venda a empresa
por 80 milhões de dólares. Leman comprou-a
numa semana. Hoje, a Ambev vale 6 mil milhões
e acaba de integrar a formação do grupo
cervejeiro número um mundial".
Agora é o insuspeito Financial Times a elogiar
o Brasil. "Há mais confiança de que
os benefícios estão para ficar",
conclui o jornal. "Até os críticos
admitem que a Administração Lula tem uma
diplomacia económica mais ousada". O próprio
Martín apela aos investidores portugueses para
não saírem com base em preconceitos ideológicos
e numa avaliação errónea da situação
(ver entrevista).
As iniciativas geo-estratégicas de lançamento
do G-20 (aliança de países em desenvolvimento
como força de pressão na Organização
Mundial de Comércio), de alianças com
a China, Índia, África do Sul e Angola,
bem como a geometria variável das exportações
brasileiras (24% para a Europa, 23% para os EUA, 18%
para a América Latina e 16% para a Ásia)
permitem ao país uma diversificação
de dependências e estão a granjear-lhe,
de novo, prestígio global.
Martín Escobari em ENTREVISTA
a Gurusonline
«Não vão embora
agora!»
Como avalia as suas "aventuras" na Economia
Digital - o Martín foi co-fundador em 1999 da
Submarino.com e presidente do ramo brasileiro da Officenet,
criada em 1997 na Argentina, dois ícones latino-americanos
da Era "dot.com"?
MARTÍN ESCOBARI: A Internet é
um fenómeno real que já revolucionou várias
indústrias, independentemente da "bolha"
de valores que se discutiu na época. Os meus
anos de Internet foram como "anos de cão"
- ou seja, cada um valeu por cinco anos de gente. Fizemos
muita coisa em pouco tempo.
E, agora, com as oportunidades de negócio
cada vez mais efémeras e fugazes, o empreendedorismo
está ficando mais difícil?
M.E.: Pelo contrário, nunca foi tão
fácil ser empreendedor. A tecnologia e a globalização
são grandes "roturas" que criam oportunidades.
Também está mais fácil - ainda
que continuando a ser MUITO difícil - do que
jamais foi. Bom, excluindo o tempo da Internet, em que
era ridiculamente fácil.
Entre os "sobreviventes" da vaga "dot.com"
na América do Sul, que "start-ups"
destacaria hoje?
M.E.: As duas a que já nos referimos.
O Submarino.com vai facturar 150 milhões de dólares
e é altamente lucrativo. A Officenet, por seu
lado, vai facturar 80 milhões e tem uma lucratividade
crescente. Acrescentaria, também, que as iniciativas
de "e-banking" dos bancos brasileiros os colocam
bem à frente de qualquer outro país.
O "custo Brasil" em termos de risco para
o investidor continua alto, ou inclusive agravou-se?
Qual o principal conselho que dá a uma empresa
portuguesa que queira entrar no mercado brasileiro?
M.E.: Esse custo caiu significativamente com
a eleição de Lula. Durante 15 anos, o
mercado sempre temeu com a ideia de que um governo do
PT alteraria dramaticamente as regras do jogo. Fazem
dois anos que temos esse governo e as regras são
as mesmas.
O que diria, então, aos empresários
portugueses que, entre 1996 e 2002, investiram mais
de 10 mil milhões de euros no Brasil e que alegam
estar "frustrados"?
M.E.: Não vão embora agora! O
ciclo está virando e está na hora de fazer
um bom dinheiro no Brasil.
| Saber mais |
|---|
Sucesso Made in Brasil Os Segredos das empresas brasileiras que dão
certo
Editora Campus, 2004
256 páginas.
Edição em inglês: "Made in
Brazil: How Brazilian market leaders survive and thrive
in a unpredictable market", Elsevier, Novembro
2004
Co-autor: Donald N. Sull, professor de gestão
na Harvard Business School.
Site na Web: www.sucessomadeinbrasil.com.br
Apresentação do livro: "Creating
Value in an Unpredictable World", artigo na revista
Business Strategy Review, editada pela London Business
School, edição de Outono, 2004.
Assinaturas em: www.london.edu/bsr/ |
Martín ToolBox 10 segredos |
|---|
1. Arte da "pesca submarina"
A capacidade estratégica de esperar, identificar,
tomar decisão rápida e agarrar oportunidades
- tal como se comporta o pescador submarino, capturando
o momento certo.
2. Saber fazer uma "espera activa"
Nos períodos de "calmaria relativa"
há que preparar as empresas para as ameaças
e oportunidades futuras. São qualidades da "espera
activa": antecipar prováveis choques, identificar
e clarificar as mudanças emergentes, construir
reservas de recursos para dispor em situações
de ameaça ou de oportunidade inesperadas, melhorar
a eficiência operacional e flexibilizar.
3. Atacar oportunidades de Ouro
Estar atento e aproveitar mudanças inesperadas
que permitem á empresa uma vantagem competitiva
sustentável. Ocorrem algumas vezes em cada década,
por isso não podem ser desperdiçadas.
4. "Driblar" ameaças de Morte Súbita
Enfrentar os solavancos inesperados e letais que colocam
em risco a própria sobrevivência da empresa.
Ocorrem, também, algumas vezes numa década
- há que os reconhecer e saber lidar com eles.
5. Executar em tempo competitivo
A agilidade é uma qualidade mais decisiva que
a estratégia, quando é o momento de actuar.
Trata-se da velocidade com que uma empresa, em ambiente
turbulento, inicia e termina melhorias operacionais,
ou muda de rota.
6. Triagem
Um conceito estratégico importado do campo da
medicina de emergência. Nos momentos críticos
é indispensável fazer um diagnóstico
estratégico e proceder à triagem do que
é decisivo fazer rapidamente e do que deverá
ser sacrificado.
7. Colchão financeiro
É preciso trabalhar como a formiga - construir
o colchão de segurança em períodos
de sucesso para protecção financeira contra
crises e para se poder capturar oportunidades inesperadas.
8. Hierarquia e RH flexíveis
Em turbulência, é preciso dar autonomia
aos quadros da linha da frente e criar um corpo de colaboradores
bem treinado em competências generalizadas e mentalizado
para a flexibilidade e agilidade.
9. Organização em rede
Estruturar a cadeia de valor em que a sua empresa se
insere como uma rede - saber estabelecer e gerir parcerias
com clientes, parceiros tecnológicos, fornecedores
críticos, distribuidores e outros "stakeholders".
É preferível, sempre, saber dividir o
trabalho e os riscos - em vez de querer fazer tudo dentro
de casa.
10. Liderança em meio turbulento
É a última - e não menos importante
- das virtudes. Os valores mais cotados para triunfar
em meio turbulento são: paciência; reconhecer
o que não se sabe, aquilo em que não se
é especialista; e capacidade para manter a cabeça
fria quando todos os outros entram em pânico. |
© Gurusonline.tv, 2004
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