Voando
sobre um gigante em crise: Radiografia do Japão na entrada do século
XXI Pelo especialista Richard Katz A
Ásia tem estado longe da ribalta, a não ser agora, no início
de 2003, com a crise na península coreana. Os ocidentais habituaram-se
a encolher os ombros perante a crise económica japonesa, uma doença
prolongada, aparentemente sem explicação "lógica".
Tanto mais que o Japão fora nos anos 80 o modelo a seguir. Nesta conversa
com o americano Richard Katz, fala-se de uma anorexia complicada e das forças
de bloqueio sociais e políticas na sociedade do Sol Nascente. Mas o entrevistado
deixa uma mensagem de esperança. Jorge
Nascimento Rodrigues, na pele do Repórter
M da revista portuguesa Ideias &
Negócios, com Richard Katz
em Janeiro de 2003 Portal de referência
sobre o Japão: The Oriental
Economist Report
Livros recomendados da autoria de Richard Katz: Japanese
Phoenix: The Long Road to Economic Revival Japan,
The System that Soured: The Rise and Fall of the Japanese Economic Miracle
Livro
de Michael Porter: Can
Japan Compete?
Reportagens sobre o Japão realizadas por Jorge
Nascimento Rodrigues no período de 1990-1992 encontram-se coligidas no
livro em co-autoria com Francisco Lopes dos Santos: Quarta Vaga, edição
dos autores Richard Katz, tem hoje 50 anos, é um especialista sobre
a Ásia e segue o Japão há mais de duas décadas. Apesar
de estar na 7ª Avenida de Nova Iorque onde edita o The Oriental Economist
Report, Katz viaja regularmente para o país do Sol Nascente. Em Dezembro
esteve em Tóquio e verificou uma temperatura "mista", um eufemismo
que se costuma usar para as bolsas - alguma esperança, grande interesse
na discussão dos problemas, mas cinismo e desilusão aumentando a
olhos vistos na opinião pública. "As pessoas discutiam nas
ruas se o ministro Heizo Takenaka, responsável pelo gravíssimo problema
da banca, seria realmente capaz de resolver os problemas. As boas notícias
é que notava-se alguma esperança e um grande envolvimento das pessoas
na discussão dos tópicos. As más notícias é
que, como o primeiro ministro Junichiro Koizumi falhou no que prometeu fazer,
o cinismo e a depressão aumentaram", diz-nos Katz revendo as últimas
notas de viagem. Mas Richard mantém-se optimista. O seu livro mais
recente sobre o Japão compara este gigante da Ásia-Pacífico
à mitológica fénix - uma teimosa capacidade de renascer das
cinzas, no caso actual de sair da crise que atacou a outrora pujante esperança
de um século XXI "asiático". A
premonição de Morita No final dos anos 80, todos assistíamos
às compras de ícones americanos pelas multinacionais japonesas e
as práticas de gestão ensaiadas nos "keiretsus" nipónicos
apaixonavam o mundo dos executivos e dos engenheiros fabris. Chegou mesmo a inventar-se
um novo "ismo", o capitalismo humano japonês, e a invejar-se a
estratégia do "comércio como guerra" em que os novos samurais
eram mestres. O mundo estava, então, entregue a uma "bigemonia"
- os EUA e o Japão, com uma URSS em vias de implosão. O Sol Nascente
era mote para romances policiais, como o de Michael Crichton, e os adivinhos do
futuro falavam de uma nova Era no mundo marcada por uma Ásia em voo de
ganso com o arquipélago a liderar. Depois, num quinquénio, tudo
se desmoronou. O primeiro homem a visualizar o fim do "Japão Inc."
foi um ícone do milagre - Akio Morita, o rosto da Sony. O que veio a ser
cognominado o "choque Morita" foi um discurso lúcido no abrir
de 1992. Nos cinco anos seguintes as palavras premonitórias de Morita
tornaram-se um pesadelo. O crescimento do gigante desde a primavera de 1997 não
ultrapassou, em média, 0,3%, e na década foi de 0,5% em média.
"A este ritmo, alerta Katz no livro agora publicado, o país vai levar
140 anos a duplicar o nível de vida actual". Segundo os últimos
dados, o Japão terá crescido 0,9% no ano fiscal de 2002 e espera-se
um crescimento ainda mais baixo, de 0,6%, no próximo ano fiscal (a partir
de Abril). O principal cancro, o crédito bancário mal parado, atinge
oficialmente o recorde de10% do PIB japonês, e segundo os mais realistas
deverá estar nos 20%. Com tão más notícias,
a dúvida instala-se. Mas Katz responde: "O Japão conseguirá
reformar-se e renascer. Tal como aconteceu há meio século atrás.
As más notícias é que provavelmente levará mais uma
década a conseguí-lo", afirma em Japanese Phoenix: The Long
Road to Economic Revival, um livro editado no final de 2002 nos Estados Unidos,
e já traduzido para o japonês, onde foi bem acolhido pela crítica
nos jornais de referência, o Asahi Shimbun e o Nihon Keizai Shimbun. A
sua fé no renascimento do Japão é impressionante. Mas se
a história serve de guia, a última vez que o país renasceu
das cinzas foi com a queda do imperialismo nipónico e a protectorado americano.
Que "actores" vislumbra na sociedade japonesa que puxem para a reforma?
Se
falar com japoneses com idades entre os 40 e os 50, quer no mundo dos negócios,
ou na academia, ou nos media, na política ou na burocracia, verifica que
o Japão está repleto de talentos, de gente inteligente e ambiciosa.
Sabem que as coisas correram mal. Mas são capazes de liderar o novo Japão.
O que falta é um programa económico claro, massa crítica,
e um veículo institucional. Com o tempo isso aparecerá. Mas
em que ponto estamos? Na fase da construção do consenso
e do suporte institucional que precede a acção. Aliás, os
factos históricos do passado que alega na sua pergunta anterior, não
teriam funcionado se o próprio povo japonês não fosse capaz
de reformar o país. «Os japoneses estão
na fase da construção do consenso e do suporte institucional que
precede a acção.» Escreveu este livro para dar
uma mãozinha nesse movimento? Quando escrevi em 1998 o meu anterior
livro (The System that Soured: The Rise and Fall of the Japanese Economic Miracle),
dizia que o Japão continuaria a sofrer se não avançasse para
uma reforma estrutural. Desde então, muitos especialistas começaram
a argumentar que o Japão não precisava de se reformar (estruturalmente)
mas apenas de estímulos económicos. Muitos afiançavam inclusive
que o país estava em reforma acelerada, desde que fez o "Big Bang"
financeiro - a liberalização no sector. Na oposição,
os analistas pessimistas contrapunham que o Japão jamais se reformará.
Eu quis contestar as duas posições e ser mais específico
sobre o que entendia por "reforma estrutural". Mas dez anos
mais para o conseguir não é uma eternidade? Numa década,
a geo-política e a geo-economia da Ásia pode ser muito diferente
- a emergência da China, a crise na península coreana, o renovar
da estratégia russa no Pacífico... É muito tempo,
de facto. Mas eu não digo que deverá levar dez anos, como se fosse
um conselho. O que eu digo é que vai levar. Mas mais vale tarde do que
nunca. As disfunções são tão profundas que, mesmo
que se fizesse tudo certo já, levaria uns cinco anos a retomar o crescimento
vigoroso. Mas fazer tudo certo hoje, de uma só penada, não se observa.
A oposição à reforma é profunda. Uma miríade
de interesses e de milhões de empregos estão em jogo. As forças
de bloqueio estão profundamente inseridas no tecido político-económico. «Cada
reforma em isolado terá um impacto meramente marginal. Pior ainda, reformas
aos bocadinhos aumentarão a resistência à reforma. Só
quando as reformas forem todas aplicadas de uma maneira coordenada, é que
funcionarão. É, por isso, que mudanças incrementais não
são suficientes.» Foi Michael Porter em "Poderá
o Japão competir?", escrito em 2002, que concluiu precisamente que
as mudanças teriam de ser feitas em simultâneo e que o problema era
saber se o Japão teria vontade de o fazer. Porter respondia a si próprio
que o que faltava era direcção e visão. Acha que sim? Acho.
De facto, um dos principais obstáculos é o facto de que não
se consegue "concertar" uma coisa sem tratar das outras partes do sistema.
Obviamente que resolver o problema do crédito mal-parado dos bancos exige
actuar sobre as entidades devedoras. Mas isso implicará despedimentos de
milhões num país sem fluidez no mercado de trabalho. Ora, como se
pode resolver o problema das dívidas sem reformar o mercado de trabalho? E
a nível empresarial, que obstáculos encontramos às reformas? A
reforma das empresas terá de ser equilibrada com maior actuação
anti-trust e mais poder aos accionistas. De outra forma, apenas favorecemos oligopólios
ainda mais fortes. Mas o reforço do poder dos accionistas exige mais envolvimento
na propriedade das empresas por parte de instituições e indivíduos.
Mas quem é que quer investir em empresas que não se conseguem levantar
do chão? Veja ainda outro caso: a desregulamentação abriu
efectivamente portas em novos terrenos. Contudo, enquanto não for feita
uma limpeza das empresas moribundas, essa desregulamentação apenas
conduz a mais capacidade excedentária. Contudo, o governo teria dificuldade
em aceitar tantas falências, com medo de deitar abaixo o sistema bancário. Mas,
no meio de todas essas contradições e dramáticas opções,
por onde começamos? Há uma coisa em que estamos de acordo
- cada reforma em isolado, na verdade, terá um impacto meramente marginal.
Pior ainda, reformas aos bocadinhos aumentarão a resistência à
reforma. Só quando as reformas forem todas aplicadas de uma maneira coordenada,
é que funcionarão. É, por isso, que mudanças incrementais
não são suficientes. De qualquer maneira, há a questão
das prioridades: o primeiro-ministro Koizumi, por exemplo, acha que o emagrecimento
do défice orçamental do Estado deverá vir em primeiro lugar.
Mas muita outra gente, em que me incluo, é de opinião que a resolução
do crédito mal-parado deverá ser a primeira coisa a fazer e isto
exige gastar dinheiro e baixar os impostos sobre as pessoas. «Há
dois Japões - o país é um híbrido disfuncional entre
indústrias fortes de exportação, de um lado, e sectores virados
para o mercado doméstico extremamente fracos.» Quais
são as principais disfunções económicas que têm
gerado uma crise tão prolongada? O Japão tem dois problemas
de fundo que dificultam o crescimento - um do lado da oferta e outro do lado da
procura, por mais paradoxal que pareça esta bicefalia. Do lado da oferta,
a questão é o fraco crescimento da produtividade gerado por uma
economia "dual". Dual? Sim, há dois Japões
- o país é um híbrido disfuncional entre indústrias
fortes de exportação, de um lado, e sectores virados para o mercado
doméstico extremamente fracos. Com a pressão da concorrência
internacional, houve sectores exportadores - como o automóvel e o fabrico
de bens de equipamento - que aprenderam a fornecer a melhor tecnologia e obtiveram
das mais altas produtividades do mundo. Mas, em contraste, dentro do próprio
Japão, a fotografia é diferente. Por exemplo? No
sector alimentar, a produtividade é 1/3 da norte-americana e está
caindo ainda mais. No entanto, trabalha mais gente neste sector do que no automóvel
e siderurgia juntos. Tome nota de que só 10 a 15% da força de trabalho
japonesa trabalhava, nos anos 90, nas áreas de exportação
eficientes. Como resultado desta situação, mesmo se o Japão
utilizasse a plena capacidade, não conseguiria crescer anualmente mais
de 1,25 a 1,5%, em termos sustentados - longe dos 4% entre 1975 e 1990. Essa
imagem dos "dois japões" é atractiva. Em suma, a "velha"
economia nipónica está a comer 30 anos de performance do sector
exportador? Essa economia "dual" só se aguentou enquanto
o sector exportador conseguiu ganhar o suficiente para poder "alimentar"
os sectores domésticos. Os altos preços que a Toyota pagava pelo
vidro, borracha e aço fornecidos domesticamente eram como que um subsídio
aos fornecedores nacionais. Esses preços domésticos inflaccionados
funcionaram como um mecanismo de "transferência" de uns sectores
para outros e, também, como financiamento do desemprego disfarçado.
A partir do final dos anos 80, os exportadores começaram a sentir que era
impossível manter esse fardo - e foram para fora, os sectores mais eficientes
começaram a deslocalizar. E à medida que o país foi perdendo
esses sectores mais eficientes, a produtividade global da economia começou
a baixar ao nível dos sectores estagnados. Referiu, também
um problema do lado da procura. O que acontece com o consumidor japonês? É
uma questão muito pouco compreendida - porque é que é difícil
que o Japão funcione a toda a capacidade? Porque o mesmo tipo de cartelização
do sector privado que sapa a produtividade global, também gera preços
ao consumidor altissímos que abalam o rendimento real das famílias
e que afectam a procura final. No Japão não funcionou um mecanismo
que observamos nas economias maduras. Quando um país atinge a maturidade
- como aconteceu com o Japão nos anos 70 -, as necessidades de investimento
abrandam, e, nessa ocasião, os rendimentos familiares e o consumo crescente
ocupam esse lugar, o que permite equilibrar a oferta e a procura. Mas isso não
aconteceu no Japão. «O consumo é baixo
não porque as famílias japonesas poupem de mais - como muita gente
pensa - mas porque ganham pouco face à carestia da vida local. A consequência
é uma espécie de anorexia económica - ou seja, a incapacidade
do Japão em consumir tudo o que produz.» Porquê? Os
altos preços ao consumidor fizeram com que o rendimento das famílias
seja agora uma parcela ainda mais pequena do que nos anos 80. Em consequência,
o consumo como percentagem do PIB é também mais baixo do que noutras
economias avançadas. Está a dizer-me que, apesar do PIB
per capita ser alto, as famílias japonesas não têm poder de
compra no mercado doméstico? O consumo é baixo não
porque as famílias japonesas poupem de mais - como muita gente pensa -
mas porque ganham pouco face à carestia da vida local. A consequência
é uma espécie de anorexia económica - ou seja, a incapacidade
do Japão em consumir tudo o que produz. Os japoneses gastam 23% em comida,
enquanto que os americanos despendem apenas 10%. O que exige reformas
nessa vertente? As reformas que introduzirem mais concorrência
doméstica não só melhorarão a eficiência pelo
lado da oferta, como diminuirão os preços monopolistas e aumentarão
o poder de compra real da população. Mas, então,
como é que o Japão conseguiu crescer 4% ao ano e o PIB per capita
3% entre 1975 e 1990? Conseguiu-o artificialmente - é essa a
resposta. Através de um estímulo artificial da procura, baseado
em excedentes comerciais elevados, défices orçamentais gigantes
e, durante os anos 80, com a ajuda adicional de juros baratos que actuaram como
esteróides monetários. Hoje a imagem do Japão é a
de um doente que abusou de antibióticos a um ponto que os medicamentos
já não fazem nada. No Ocidente ouvimos falar muito desse
papel "indutor" de juros cada vez mais baixos. No Japão inclusive
já estão em valores negativos pelo menos no "overnight".
Mas isso continua a não debelar essa anorexia de que falou. Porquê? Para
as indústrias não é excitante - estão com excesso
de stock de capital. Os keiretsu do automóvel podem colocar cá fora
14 a 15 milhões de veículos por ano, mas para quê, se só
conseguem vender 10 a 11 de milhões? Para que é que essas empresas
se vão envidar mais ainda - mesmo com juros muito baixos - para adicionar
mais capacidade por utilizar? E quanto às pessoas, não
é atractivo? Repare, os salários reais têm estado
estagnados desde 1997. As pessoas não estão entesourando. A taxa
de poupança das famílias tem caído - de 14% em 1990 para
10% em 1997 e 7% em 2001. Os gastos no consumo são baixos, não porque
as pessoas estejam a poupar exageradamente - repito - mas porque ganham realmente
pouco. Por outro lado, não esqueça que juros baixos é mau
para as poupanças dos reformados. A queda nos rendimentos provenientes
de juros atingiu 5% do rendimento familiar.
| UM
OLHAR POLÍTICO |
|---|
| E falando em termos
políticos, o sistema está a mudar? O sistema politico-económico
do Japão funcionou com um nível mínimo de crescimento real
e nominal. Se isso desaparece, conflitos de interesse rebentam - o alívio
concedido a um sector de interesses inevitavelmente prejudica outro. Cada dia
que passa assistimos, por isso, a conflitos intestinos nos eleitores do Partido
Democrático Liberal: camponeses contra urbanos, bancos contra seguros,
jovens contra reformados, sector eficiente contra ineficiente. O Japão
continua a ser a única democracia que está baseada num partido único
de Estado. Excepto por duas vezes, duas interrupções de um ano,
o PDL e os partidos predecessores governaram desde 1945. Esta é uma das
razões porque tem sido tão difícil equacionar os problemas. Mas
o PDL já foi afectado por isso seriamente... Já se partiu
uma vez, em 1993, o que provocou a queda temporária do poder. Mesmo tendo
voltado ao poder, tem sido obrigado a mudar de parceiros de coligação.
Mais tarde ou mais cedo nova cisão voltará de novo a acontecer,
talvez como consequência da ascensão de Koisumi. Hoje em dia há
um fosso visível entre os interesses do partido dominante e da nação.
Numa democracia, este tipo de fosso não é sustentável indefinidamente. Como
apontamento pessoal, uma das coisas que mais me impressionou foi ter ouvido em
Tóquio as reacções a um discurso de Akio Morita em princípios
de 1992, em que ele dizia aos japoneses que o sistema do pós-guerra estava
esgotado. Isso provocou o que os analistas chamaram de "choque Morita".
Enfim, a elite empresarial sabe perfeitamente o que está errado desde há
uma década pelo menos. Porque não muda? Porque nenhuma
sociedade se lança numa transformação antes que todas as
outras alternativas se tenham esgotado. E, durante tantos anos, muitos dos mais
brilhantes economistas têm clamado que há várias alternativas
ainda possíveis: basta gastar mais ou imprimir mais papel moeda. Só
muito recentemente a noção de que "não há renascimento
sem reforma" começou a ter aceitação geral. Para
fechar, o seu prognóstico? O Japão fará a reforma
e renascerá. |
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