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Michael T. Klare, especialista em geo-economia de recursos estratégicos

O RISCO DE GUERRAS EM SÉRIE

Jorge Nascimento Rodrigues com Michael Klare

Primeira entrevista da série «A Caixa de Pandora do Crude» (2002)


Artigo sobre o livro de Klare, «Resource Wars»


A Administração Bush pode estar a abrir uma caixa de Pandora do petróleo. «Temo que o resultado possa vir a ser uma série infindável de 'guerras do petróleo', se os Estados Unidos não aprenderem a controlar os seus apetites pelo ouro negro e não adoptarem modos alternativos energéticos», afirma Michael Klare, um professor norte-americano do Hampshire College, no Massachusetts, que em Maio do ano passado (2001) publicou «Guerra pelos Recursos», um livro que lançou um debate acalorado na revista americana Foreign Affairs, e que, na altura, foi apresentado na Janelanaweb.com. Klare prepara para o início do próximo ano a publicação de mais um livro polémico cujo título é elucidativo: «Sangue e Petróleo: As implicações para a segurança internacional da dependência crescente dos Estados Unidos na importação de crude».


Desde a publicação de «Guerras pelos Recursos» - então considerado quase uma heresia -, quem ganhou a polémica, o seu argumento ou os críticos?

Creio que a ideia central do livro ficou confirmada. Em particular, a terrível tragédia do 11 de Setembro ocorreu, em parte, a meu ver, por causa da aliança «petrolífera» entre os EUA e a família real saudita. Esta aliança estabelecida em 1945, garante a sua protecção pela América e, em contrapartida, os sauditas garantem o acesso privilegiado dos EUA ao petróleo. Apesar de benéfica às duas partes, esta aliança enervou alguns sauditas que estão revoltados com o estacionamento de tropas americanas na Arábia Saudita e com os laços muito estreitos entre os EUA e Israel. Foi destes meios anti-americanos que saiu Osama bin Laden e muitos dos seus seguidores - incluindo 15 dos 19 piratas do ar de 11 de Setembro.

Mas em que medida é que essa oportunidade do combate às redes terroristas desemboca na guerra geo-económica pelos recursos de que fala no seu livro?

Combatendo o terrorismo, os Estados Unidos podem, também, segurar o seu posicionamento nas regiões vitais de produção do petróleo do Golfo Pérsico, no acesso ao Mar Cáspio, e na Colômbia. Inclusive a preocupação americana com a segurança dos fornecimentos futuros de petróleo levou a um relacionamento maior com o petróleo russo.

Mas, no quadro geo-económico traçado no seu livro do ano passado, como se pode interpretar a operação do Afeganistão? Alguns analistas, mais extremados, falam de pura operação logística no quadro do xadrez dos oleodutos e gaseodutos da região?

Ela foi principalmente pensada para destruir o regime talibã e o santuário de Osama bin Laden e da sua organização, Al Qaeda. Em certo sentido, pode ser um «desenvolvimento» do problema da Arábia Saudita, dado Osama e a Al Qaeda representaram uma ameaça ao governo saudita. Agora com esse aspecto resolvido, os EUA usarão as suas bases na Ásia Central para proteger um futuro fluxo de petróleo a partir dessa região. Mas não creio que esse tivesse sido o motivo primordial da operação.

Mas porquê, agora, o Iraque?

A campanha da Administração Bush terá certamente vários objectivos: primeiro, eliminar a ameaça do Iraque ao Koweit e Arábia Saudita; depois demonstrar que ninguém pode desafiar a supremacia americana; e, em terceiro lugar, ganhar controlo sobre as reservas de petróleo do Iraque, que são as segundas maiores do mundo, depois da Arábia Saudita.
Podemos esperar uma concorrência crescente no controlo do petróleo da Venezuela e da Colômbia na América Latina, em Angola, Nigéria e Sudão, em África, e na bacia do Mar Cáspio.

Para além do Médio Oriente, que outros pontos de conflito potencial vê à luz da nova geografia das guerras de recursos? O que é que nos pode vir a surpreender?

Qualquer área possuindo capacidade de oferta de petróleo pode ser um ponto de conflito, à medida que a procura mundial de energia crescer e alguns fornecimentos de crude secarem. Creio que podemos esperar uma concorrência crescente no controlo do petróleo da Venezuela e da Colômbia na América Latina, em Angola, Nigéria e Sudão, em África, e na bacia do Mar Cáspio. Outros pontos críticos incluem as bacias dos rios em regiões de escassez de água, como a bacia do Nilo, do Rio Jordão ou do Tigre-Eufrates.

A chamada doutrina «neo imperial» da Administração Bush é impelida por esta corrida aos recursos?

A fuga para a supremacia global por parte da Administração Bush é conduzida, em parte, por considerações ideológicas - o credo na supremacia do modo de vida americano e o desejo de impor o sistema ao resto do mundo -, e , em outra parte, de facto, por considerações ligadas aos recursos. Em particular, a determinação em ganhar controlo sobre uma quota crescente de fornecimentos energéticos mundiais de modo a compensar a deterioração dos fornecimentos domésticos de petróleo. Isso acarreta o risco de uma série de «guerras do petróleo», a não ser que os EUA controlem o seu apetite pelo ouro negro ou adoptem modos alternativos de transporte.

E como é que avalia a posição da Europa?

Como o vosso Continente continua a depender em boa parte também do petróleo do Médio Oriente, dependerá dos EUA para defender esse fluxo. Neste sentido, a Europa está numa posição subalterna, e goza de menor independência política e capacidade de manobra.

SANGUE & PETRÓLEO
«Os EUA necessitarão de importar uma cada vez maior quota dos fornecimentos de petróleo, em virtude da sua produção viver um declínio irreversível de longo prazo», alega Michael Klare no seu próximo livro. Michael Klare surpreendeu os analistas e os políticos, no ano passado, quando publicou «Guerras pelos Recursos: O novo terreno para os conflitos globais», onde começava por sublinhar que a Guerra do Golfo de 1991 fora a guerra pioneira deste novo tipo de conflitos, bem como as múltiplas guerras locais aparentemente civis em África. Estávamos em Maio, muito longe do então inimaginável 11 de Setembro. Klare concluía, então, que «a competição à volta dos recursos naturais tornar-se-á um factor mais importante, pelo menos em certas áreas do globo». A polémica estalou então na revista Foreign Affairs então ainda dominada pelo debate da ideia do «choque entre civilizações» como um dos motores da luta pela hegemonia e dos conflitos do futuro, depois da queda do Muro de Berlim.
Klare prepara, agora, um novo livro focalizado na questão decisiva da crescente dependência do petróleo por parte dos Estados Unidos. Intitulou-o sugestivamente: «Sangue e Petróleo», a sair no próximo ano. A tese do livro «é que os EUA necessitarão de importar uma cada vez maior quota dos fornecimentos de petróleo, em virtude da sua produção viver um declínio irreversível de longo prazo», diz-nos Klare. E prossegue: «Os EUA prefeririam depender de 'vizinhos seguros', como o Canadá ou a Europa, mas estas áreas também sofrem um declínio de longo prazo. O que significa que os EUA terão de depender de 'vizinhos perigosos', como o Golfo Pérsico, o Mar Cáspio, a Colômbia, Venezuela e África. Pelo que terão de proteger esses acessos, estacionando tropas ou usando a força militar»

 
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