Digital Factory - Innovative Ideas for Growing Business www.inseadinnovasia.com
English inglês Castellano castelhano pesquisa:
registe-se:
 
Home >>Página Anterior >> Artigo

Enviar por Email Enviar artigo por e-mail

Imprimir Imprimir  
Por um desenvolvimento humano, justo e sustentável

Por Mário Murteira (*)

Economia baseada no conhecimento ou conhecimento baseado na Economia?

A expressão "economia do conhecimento" (ou ainda "economia baseada no conhecimento", EBC ou KBE, na correspondente expressão inglesa) designa um sistema económico onde predominam os serviços, as actividades económicas em geral são "intensivas em conhecimento" (usam tecnologias avançadas, mão de obra altamente qualificada e investem significativamente em actividades de Investigação & Desenvolvimento), e a concorrência determina uma necessidade constante de inovação que, por sua vez, gera uma constante procura de conhecimento que fundamente, ou permita, essa inovação. Esta, note-se, não é necessariamente criativa, pois pode ser simplesmente adaptativa e incremental; a inovação, numa definição consagrada internacionalmente, pode traduzir-se em novos produtos, processos, formas de organização ou estratégias competitivas (por exemplo, passagem da internacionalização pelo comércio internacional à internacionalização pelo investimento em países estrangeiros, ou da concorrência agressiva à chamada "networking" ou cooperação entre empresas organizada em rede) Hoje em dia, os países considerados mais avançados no seu desenvolvimento económico e social entraram já nessa fase da "economia do conhecimento".

O Banco Mundial desenvolveu uma metodologia de fácil acesso na Internet, conhecida pelas iniciais KAM (Knowledge Assessment Methodology) que permite localizar e ordenar a maior parte dos países do mundo na sua progressão na realização da EBC. Esta, como é evidente, é algo de emergente, em vias de se fazer e nunca totalmente consumado.

Na realidade, existe muita ambiguidade nestas análises, conceitos e definições.

A mais decisiva, talvez, de todas as interrogações pode formular-se, duma maneira um tanto caricatural, mas pertinente, do seguinte modo:

Caminhamos para economias e sociedades "baseadas no conhecimento" ou antes para sociedades cada vez mais dominadas por um conhecimento "baseado na economia"?

Explicando a interrogação:

.O ponto a destacar reside no risco dum gradual mercantilização do conhecimento, incluindo o científico, deixando o investigador de sê-lo apenas, como disse de si mesmo um prémio Nobel da Física, pelo "prazer de descobrir coisas". No limite, a EBC iria cada vez mais condicionar o desenvolvimento do conhecimento sobre o próprio homem e a Natureza pela expectativa dos correspondentes resultados financeiros.

Uma "economia baseada no conhecimento", e funcionando segundo a lógica da economia de mercado, é algo que pode ser positivo, sem dúvida, se a subordinação do conhecimento ao mercado "realmente existente" e não apenas o imaginado pelos seus apóstolos, for temperada ou condicionada por outro tipo de conhecimento, não mercantil e seriamente orientado por um paradigma de desenvolvimento humano.

É esta questão que importa examinar mais de perto.

Implicações da globalização das economias e sociedades

O termo globalização banalizou-se e, depois de ter sido objecto de muita controvérsia, tornou-se porventura uma via de confusão e não de esclarecimento de problemáticas reais e importantes do mundo neste conturbado início do séc. XXI É assim necessário esclarecê-lo, antes do mais.

Com algum rigor, o temo significa o seguinte::

1-Crescente interconexão ou interdependência entre as diferentes economias nacionais, com influência determinante de actores transnacionais que se situam num espaço próprio, que alguns designam por mega-economia (para distinguir dos termos mais correntes de economia internacional e macroeconomia, ou economia nacional). Aqui se situam as chamadas empresas transnacionais (ETN) ou multinacionais, cuja importância no funcionamento da economia mundial cresceu dramaticamente no último quarto de século.
.
2- Influência crescente das novas tecnologias da informação e comunicação (TIC). Esta influência exerce-se em todas as dimensões da economia e da sociedade. Todavia, essa influência não se manifesta da mesma forma nem ao mesmo ritmo nessas várias dimensões. Por exemplo: a globalização financeira é hoje, talvez, a dimensão mais forte e veloz do processo geral de globalização da economia mundial; mas a globalização do conhecimento é muito mais lenta e parcial

3- A globalização em curso, além do mais, gera novas relações entre o local e o global. Com efeito, o local pode ser passivo perante o actor transnacional, perdendo a sua especificidade; ou, pelo contrário, pode promover-se a especificidade do "local" ao nível global, tornando-o por exemplo atractivo destino turístico. Em qualquer caso, perde-se a densidade da relação local-nacional, a favor da relação local-global.
Um bom exemplo de tudo isto é a chamada Cidade Velha, localizada na ilha de Santiago, perto da Praia, capital de Cabo Verde, e considerada património universal pela Unesco. Esse local é de importância crucial para a compreensão da identidade caboverdeana, como defende o historiador António Correia e Silva, presidente da Comissão Instaladora da Universidade de Cabo Verde. É também testemunho importante da história do tráfico negreiro, pois a Cidade Velha foi frequente ponto de passagem do tráfico de escravos, comandado por portugueses, entre a África, a Europa e o Brasil. É pois importante preservar o depósito histórico dessa velha cidade, como memória da própria humanidade. Mas a preservação e reabilitação dos monumentos históricos desse local pode também servir a promoção do turismo em Cabo Verde e, por essa via, a própria "globalização" da Cidade Velha, antiga capital do tráfico negreiro. Algo de semelhante poderia ser afirmado relativamente à ilha de Moçambique, de tão "global" passado, no que respeita à própria identidade da nação moçambicana.

4- Uma consequência do processo hiper-complexo de globalização da economia mundial - que não pode ser travado e tem dimensões positivas como dimensões negativas - é a modificação da natureza do estado-nacional, ficando a grande maioria dos estados condicionada, se não determinada, por factores que de todo escapam ao seu controlo. Por outro lado, o mercado mundial, sendo global, está todavia organizado em espaços macro-regionais, com diferentes lógicas de funcionamento, incluindo lógicas hegemónicas. Pensemos na União Europeia, na África Austral, na Ásia do Pacífico, na América Latina, ou na postura hegemónica dos EUA em todo o sistema mundial.

Movimentos sociais e paradigmas de "desenvolvimento humano"

Perante este panorama acima esboçado, ocorre perguntar: mas de que meios dispomos para aproximar (ou distanciar menos) este mundo movediço, contraditório, conflitual dos autênticos valores do desenvolvimento dito "humano"? Evitando, do mesmo modo, a sua total mercantilização pelo sistema económico que hoje impera por todo o lado?

Visto deste canto da Europa em que me encontro julgo que, no essencial, há que traduzir o que poderíamos chamar "paradigma cristão do desenvolvimento humano" em formulações amplas que possam gerar amplos consensos, para além das estritas e respeitáveis fronteiras das convicções religiosas. Mas claro que outros paradigmas igualmente respeitáveis e "humanos" poderão basear-se noutros fundamentos religiosos. No fim de contas, se aceitamos que somos todos "humanos", temos algo de fundamentalmente comum, e não deverá ser impossível a convivência desses paradigmas; melhor dito, será indispensável assegurar a sua convivência.

É bom notar que o processo de globalização é, além do mais, uma globalização de movimentos sociais como se pode observar, por exemplo, na experiência - sem dúvida nalguns aspectos controversa, mas de grande vitalidade - do chamado Fórum Social Mundial nascido em Porto Alegre, no Brasil.

De assinalar, também, que o último relatório da ONU sobre Desenvolvimento Humano Mundial (2004) põe a ênfase na necessidade da "liberdade cultural", isto é, na necessidade de se encontrarem formas democráticas de livre expressão de diferentes culturas na mesma sociedade. Temos todos presente as ameaças de terríveis violências - que, aliás, passam à prática com crescente frequência - que tomam como pretexto o não reconhecimento dessa liberdade.

Um amplo movimento social de inspiração cristã, ou inspirado noutra religião verdadeiramente "humana", nos incertos tempos que correm, só pode ter sentido se aliar à tolerância por "outras culturas" a persistente e rigorosa procura de actualização e o aprofundamento do seu específico paradigma cultural, ao serviço do desenvolvimento de todos os seres humanos.

E, finalmente, contribuindo para dar verdadeiro sentido a essa "economia baseada no conhecimento, que assim, e só assim, seria também baseada num conhecimento ao serviço do homem.


(*) Professor catedrático jubilado do ISCTE (Lisboa)

 
Outros Artigos
Peter Drucker - Uma divida pessoal
Entrevista Exclusiva a Peter Drucker
O filme do Management desde The Concept of Corporation em 1946
Quando o Management largou o bibe
A Herança de Alfred Chandler
A internacionalização que nasceu nos sítios errados
Voando sobre um gigante em crise: Radiografia do Japão na entrada do século XXI
«A expressão 'management' é redutora»
Executivos têm de aprender geo-política
Hoffice
Economia Global & Gestão
Geo-política nas empresas
Deixe-se de sofisticações artificiais
Os truques do Jogo de Cintura brasileiro
As Pegadas da Língua
Novo Media Partner Adventus
Os media de carne e osso
Irrelevância da Política?
SKYPE - A nova estrela do hi-tech europeu
Uma cultura forte é discreta, diz o francês Hervé Laroche
O Factor China
Richard Samson fala da «buzzword» que criou: off-peopling
Oligopólio ao quadrado
David Vogel - O crítico da «responsabilidade social»
Vinton Cerf - o «Pai» da Internet explica o que vai fazer no Google
A Guerre Cognitiva segundo Christian Harbulot
ESTAMOS DE LUTO
A Morte do Advogado do Diabo como método de gestão
Cérebros em Fuga da América
O Senhor «Megatrends» dá-nos uns murros
Tendências e Gurus do 1º semestre 2006
A revolução dos escritórios
Não roube o CEO ao vizinho
Sair à rua para inovar
O guru hoteleiro
Truques para fintar concorrentes (quatro conselhos soprados ao ouvido por um especialista do BCG)
Dois novos Blogues da rede Adventus
A Revolta dos Fornecedores
O gosto das multidões ("the taste of the crowds")
PARA ONDE VAI A CHINA
O Mercado Comum do Ocidente
Os Truques das multinacionais emergentes
O mundo à lupa com a Curva J
A ratoeira do «outsourcing»
Os que inovam uma só vez – os «one shot»
O Novo Capital financeiro
Darwin “raptado” para a gestão
Carr volta a atacar
As «buzzwords» mais amadas pelos CEO em 2007
PREMIÉRE MUNDIAL. O anúncio de um experiência de Clonagem Humana
A principal exportação americana
A globalização não é o que se diz
O render da guarda dos fundadores

Índice
   arquivo de Gurus
   arquivo de Temas
   50 anos do Management
   cronologia
   momentos históricos
   os 50 gurus + votados
   livros recomendados
Discurso Directo
   quem somos
   agradecimento
   palavras dos patrocinadores
   prefácios
   guestbook de leitores
   o seu comentário
Patrocínio Global
Altitude Software
Copyright © 2001 GurusOnline.Net - Todos os Direitos Reservados
Uma produção www.janelanaweb.com
Ilustrações: Paulo Buchinho
Webdesign: Fábrica Digital.PT