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Os Truques das multinacionais emergentes
Subitamente surgiram a fazer aquisições
ou invadiram mercados do Ocidente. Quais são
as suas estratégias ganhadoras, foi o objectivo
de um estudo de dois professores de Harvard ao longo
de seis anos, Veja o que diz Krishna Palepu.
Jorge
Nascimento Rodrigues,
editor de Gurusonline.tv, Janeiro de 2007
Nos anos 1970 e 1980 o mundo ficou surpreendido com
a emergência das multinacionais japonesas e com
os seus modelos de gestão e de negócio
que encheram, na altura, as estantes de livros de management.
Depois, nos anos 1990, foi a vez de surgirem as empresas
globais de dois dos "tigres" asiáticos,
a Coreia do Sul e Taiwan.
Agora é a vez de "uma nova vaga",
dizem Krishna Palepu e Tarun Khanna, professores da
Harvard Business School, em Boston, ao fim de um estudo
que durou seis anos, e que revelou que as multinacionais
de uma franja de países do que antigamente se
chamava "Terceiro Mundo" entraram em força
na cena mundial.
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UM TRUQUE ESPECIAL
O saber lidar com uma segmentação
fina trouxe-lhes a habilidade de descobrir, nos
mercados dos próprios países desenvolvidos
na Europa e na América, grupos de consumidores
muito sensíveis ao preço ou segmentos
específicos de pequeno e médio poder
de compra (diáspora emigrante, mercados étnicos,
estudantes, consumidores rurais, mercados climáticos). |
Basta recordar o exemplo chinês da Lenovo nos
PC ou da Haier nos electrodomésticos, a projecção
global de um grupo cimenteiro como a Cemex mexicana,
a incrível capitalização bolsista
do grupo de líderes indianas no BPO (business
process offshoring) e no KPO (knowledge process outsourcing),
as farmacêuticas indianas e israelitas, as cervejeiras
brasileira (Ambev) e da África do Sul (SABMiller)
até casos menos conhecidos na Europa como uma
cadeia de "fast food" filipina (Jollibee Foods).
Estas grandes empresas começaram, em geral,
por fazer a tarimba doméstica em contextos legais
e institucionais muito adversos como são os dos
países emergentes e em desenvolvimento, onde
aprenderam a ter "jogo de cintura" e a saber
explorar os segmentos certos.
Segmentação 'terceiro-mundista'
Os dois autores falam de três segmentos na estrutura
de mercado - chamemos-lhe "terceiro mundista",
sem conotação pejorativa - em que as novas
multinacionais cresceram e aprenderam os truques: o
de muito baixo poder de compra; o puramente de sabor
local para a classe média baixa; e um terceiro,
virado para a classe média, que designaram por
"glocal", ou seja de produtos com um standard
muito próximo do global mas com marcas e características
nacionais, mais baratos do que os estrangeiros. Aprenderam,
também, a não confrontar as grandes marcas
internacionais. Depois passaram aos mercados de proximidade
geográfica ou de afinidade também no "Terceiro
Mundo".
O saber lidar com uma segmentação fina
trouxe-lhes a habilidade de descobrir, nos mercados
dos próprios países desenvolvidos na Europa
e na América, grupos de consumidores muito sensíveis
ao preço ou segmentos específicos de pequeno
e médio poder de compra (diáspora emigrante,
mercados étnicos, estudantes, consumidores rurais,
mercados climáticos).
Oportunidades globais
Mas há outras emergentes que passaram ao terreno
global rapidamente. A oportunidade que exploraram, dizem
os dois investigadores, deriva da proximidade dos seus
negócios com dois tipos de recursos estratégicos:
o talento local ou de outros países emergentes
(como o fez o sector das TI indiano dentro do seu próprio
país, mas também mobilizando talento barato
na China e na Rússia) ou as matérias-primas
inseridas em cadeias de fornecimento mundial de "commodities"
(um caso de estudo foi o da Bunge brasileira, no agro-alimentar).
Palepu e Khanna divulgaram os resultados da investigação
na revista Harvard Business Review recentemente ("Emerging Giants - Building World-Class Companies in Developing Countries", HBR, Outubro 2006.
Entrevista rápida a Krishna Palepu
P: Acha que os países emergentes criarão
um grupo de multinacionais que desafiarão a liderança
mundial?
R: Sem dúvida. Veja já o que está
a passar-se nas tecnologias de informação
ou na farmacêutica por parte das multinacionais
indianas emergentes - por exemplo, Tata, Satyam, Wipro,
Infosys, Ranbaxy, Dr. Reddy's já estão
a fazer abertamente esse desafio. Ou no campo dos bens
de consumo, por parte das novas multinacionais chinesas
(por exemplo, Galanz, Lenovo, Huawei, Haier). Ou ainda
o caso da CEMEX (cimenteira mexicana), da Bunge (processadora
brasileira de cereais) ou da Ambev (cervejeira brasileira
que se juntou com a Interbrew belga), mesmo da Teva
(farmacêutica israelita) ou da Jollibee Foods
(cadeia de "fast food" filipina). Todas elas
estão a desafiar as multinacionais mais maduras.
P: Qual o universo de emergentes que identificaram
no vosso estudo?
R: No estudo que fizemos desde há seis anos,
encontrámos 134 grandes empresas provenientes
de 10 mercados emergentes - África do Sul, Argentina,
Brasil, Chile, China, Índia, Indonésia,
México, Polónia e Turquia. Não
incluímos empresas da Rússia, por falta
de dados para poder caracterizar as estratégias
e os modelos de negócio.
P: Qual é a principal vantagem destas emergentes?
R: É o facto de terem grandes mercados domésticos
quer para os produtos quer em termos laborais. E têm
um conhecimento local próprio para explorarem
os vazios legais e institucionais.
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