Truques para fintar concorrentes
(quatro conselhos soprados ao ouvido
por um especialista do BCG)
George Stalk Jr, o guru do The Boston Consulting
Group, que tem mais vidas que um gato, depois de sair
de um coma, voltou a surpreender a consultora com mais
um lote de estratégias para o leitor poder vencer
no mercado.
Texto de Jorge
Nascimento Rodrigues, editor de gurusonline.tv,
e ilustração por Paulo
Buchinho. Entrevista com George
Stalk Jr.
Livros do Autor:
'Kaisha:
The Japanese Corporation' (1985)
'Competing
Against Time' (1990 - reedição de 2003)
'Hardball' (2004)
Artigo
na Harvard Business Review: "Curveball: Strategies
to full the competition" (HBR,
September 2006, volume 48, number 9)
Um interessante artigo sobre a vida de Stalk
Sítio
do autor
O mercado é um campo de batalha entre concorrentes
- ganha quem puser em prática estratégias
originais para infligir uma derrota pesada aos adversários.
O que pode ser feito frontalmente ou com alguns truques.
Quatro estratégias
· Empurre o seu concorrente para se focalizar em áreas
menos lucrativas, deixando-o ser líder nesses
segmentos
· Disfarce o seu sucesso, não revelando nunca
o que é essencial na sua estratégia
· Deixe os concorrentes interpretar mal o seu sucesso,
permita-lhes imitar aquilo que não é crítico
· Compreenda e adapte as boas práticas de outras
indústrias, para quem ninguém olha; pratique
o "benchlearning" global e não o "benchmarking"
endogâmico
|
George Stalk Jr, um sénior da consultora The
Boston Consulting Group (BCG), nunca teve dúvidas
e disse-o cruamente há dois anos atrás
em 'Hardball: Five killer strategies for trouncing the
competition'. 'Trouncing' pode ter muitos significados
em português, o mais benigno deles é o
que utilizámos - infligir uma derrota severa.
"Pode parecer uma noção primitiva,
mas é mesmo assim, e ninguém pede desculpa
por isso", comenta ele.
Agora, o consultor de 55 anos, um tremendo "workaholic",
que sobreviveu a um coma há três anos atrás,
veio complementar a arte de bater a concorrência
com quatro novas estratégias para fintar inteligentemente
os outros protagonistas.
O efeito em curva
Apelidou-as de 'curveball' para distinguir de 'hardball'.
Stalk foi buscar inspiração ao basebol,
em que o atirador lança a bola com um efeito
em curva que acaba por enganar o batedor que julga que
a bola vai numa direcção e depois acaba
por ser surpreendido com outro trajecto. É claro
que estes 'efeitos' são usados por jogadores
em várias modalidades.
Transportando a imagem para a gestão, Stalk
fala de empurrar os concorrentes para duas jogadas em
falso: ou lançarem-se a fazer algo estúpido
que, se não fosse sob o efeito surpresa, não
o fariam (por exemplo, lançarem-se em cortes
de custos sem fim ou em gastos sumptuosos de marketing;
meterem-se em segmentos onde alcançam liderança
mas que só dão prejuízo); ou deixarem-se
adormecer, não fazendo algo inteligente que de
outra forma deveriam fazer se percebessem o que se passou
debaixo do seu nariz.
Mas Stalk põe os pontos nos ii quando o interrogamos
sobre a legitimidade dos 'efeitos': "Atenção,
não estou a falar, num caso nem no outro, em
mentir e vigarizar - isso chamo-lhe de 'softball', que
é uma prática desleal que, pode crer,
magoa muito mais. A essência do 'curveball' é
surpreender os concorrentes, que levam algum tempo precioso
a perceber efectivamente o que se passa e consequentemente
a responder".
No estudo detalhado que fez de imensos casos, Stalk
confessa que o que mais o surpreendeu foi o que ocorreu,
nos últimos anos, entre as companhias aéreas:
"Neste sector, quer nos Estados Unidos como na
Europa, falei com imensa gente da gestão das
companhias incumbentes que ainda julgam que a fórmula
de sucesso de uma Ryanair ou de uma Southwest Airlines
é uma mistura de marketing com mão-de-obra
barata. Passou-lhes completamente ao lado a importância
da optimização extrema da utilização
dos activos que as "low cost" puseram em prática".
Em regra, quando os incumbentes fazem o trabalho de
casa de "benchmark" das boas práticas
das "low cost" olham para as cerejas do bolo,
enganam-se sobre o segredo básico do sucesso.
Outro caso que Stalk destaca foi a atitude do banco
de retalho inglês HBOS (resultante da fusão
da Halifax Building Society com o Bank of Sctoland em
2001, e que conta hoje 22 milhões de clientes)
que, em vez de copiar as práticas tradicionais
no sector, fez "benchlearning", ou seja foi
fora da indústria perceber boas estratégias
e o seu contexto, entender os seus ingredientes e surpreender
todos os banqueiros utilizando técnicas não
usuais. "Isto é difícil e por isso
muita gente não o faz. O desafio é descobrir
a relevância para o seu caso de boas práticas
noutras indústrias, em relação
às quais os seus concorrentes estão totalmente
a leste", diz-nos o vice-presidente do BCG que
hoje trabalha a partir dos escritórios em Toronto.
Stalk, uma lenda viva do The BCG
George Stalk Jr, está há 28 anos na consultora
de Boston, e hoje é vice-presidente. Entrou com
uma licenciatura em engenharia mecânica, mas bem
recheado com um mestrado em aeronáutica no vizinho
MIT e com uma MBA na Harvard Business School, também
ali ao lado. O seu percurso na consultora talhou-lhe
a fama de "brutalmente inteligente" e os colegas
alcunham-no de 'Johny Appleseed', um plantador de ideias
(que não de macieiras) por todo o lado. O BCG
deve-lhe alguns dos conceitos que depois se tornaram
máquinas de fazer dinheiro na consultoria.
Foi dos primeiros a perceber o que se passava no Japão,
quando lá esteve no escritório do BCG
durante uma década. Foi co-autor de 'Kaisha:
The Japanese Corporation' (1985), sobre os segredos
da empresa japonesa e alvitrou que eram 'imitáveis'.
Quando regressou, testou as lições que
tirara no Japão numa fábrica nos EUA,
tendo pedido uma licença sem vencimento por um
ano. Fruto dessa prática, co-escreveu 'Competing
Against Time' (1990), que gerou a estratégia
de competição na base da velocidade. Depois
passou pelo escritório do BCG em Chicago e finalmente
radicou-se em Toronto desde 1992, onde vive com a família,
de 6 filhos (quatro adoptados) numa quinta.
Chegou a viajar 500 mil milhas por ano, até
que a doença lhe pregou uma rasteira - num quarto
de hotel em Boston começou a vomitar sangue.
Esteve em coma há três anos atrás,
mas safou-se quando ninguém esperava. Conta a
lenda que conseguiu fintar a morte. Por isso os colegas
dizem que "tem mais vidas do que um gato".
À saída da convalescença co-escreveu
mais um livro, 'Hardball' (2004), a que nos referimos.
Alguns títulos do livro tiveram que ser mesmo
'amaciados" pela própria BCG, mas mesmo
assim os críticos acham que o livro é
"brutal".
Agora, o seu objectivo é perceber o que se passa
com a China, e que oportunidades e ameaças envolve.
Mas teve de abrandar o ritmo.
|