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A ratoeira do «outsourcing»
A teoria da focalização
nas "competências centrais" difundida
pelos gurus Gary Hamel e C.K. Prahalad teve a sua quota-parte
na emergência dos megadistribuidores e no suicídio
da independência de fabricantes. Quem "acusa"
é Andrew Thomas e Timothy Wilkinson no ensaio
a contracorrente "The Outsourcing Compulsion".
Um trabalho que é divulgado na Revista Portuguesa
e Brasileira de Gestão, nº3/2006.
Jorge
Nascimento Rodrigues,
editor de www.gurusonline.tv, Janeiro 2007
«O conceito de Hamel e Prahalad
é bom - mas em teoria. Em teoria não há
diferença entre a prática e a teoria.
Mas na prática há.»
O estudo que foi realizado por dois professores de
Marketing norte-americanos, e agora divulgado na MIT
Sloan Management Review (edição
do Outono 2006, volume 48, nº1), parece um
manifesto contra a megadistribuição na
América (um tema que é "exportável"
para outras paragens).
Os Wal-Mart, Home Depot e outros megadistribuidores
teriam liquidado a independência das marcas de
fabricantes norte-americanos e empurrado estes para
uma espiral de "outsourcing" nos países
emergentes, procurando custos sempre mais baixos na
produção, na tentativa de sobrevivência
face ao garrote dos preços pagos pelas grandes
superfícies. A corda do "outsourcing"
foi tão esticada, que os fabricantes sentem-se
hoje encurralados, sem saber como reagir.
Mas Andrew R. Thomas,
professor de Marketing na Universidade de Akron, nos
EUA, e um dos co-autores, reage energicamente à
ideia de que teria posto na rua um Manifesto contra
as grandes superfícies: "Não, de
modo nenhum. Os megadistribuidores fizeram aquilo que
qualquer empresa inteligente faria: aproveitaram, com
sucesso, uma janela de oportunidade no mercado. O erro
estratégico está nos próprios fabricantes".
Os gurus ajudam à asneira
A mania do "outsourcing" de grande parte
das competências e funções - incluindo
as forças de vendas e os canais próprios
de distribuição - por parte das marcas
fabricantes começou nos anos 1990. Uma doutrina
que então ganhou muitos fãs foi a da focalização
nas "competências centrais" distintivas
e diferenciadoras (a expressão inglesa "core
competencies", que, ainda, hoje os gestores usam
amiúde). Dito de um modo simplista, as empresas
deveriam largar tudo o que não estivesse ligado
às suas competências centrais e diversificar
o seu portefólio apenas em função
daquelas. As opções para o não-essencial
seriam a subcontratação (procurando custos
cada vez mais baixos noutros fabricantes especializados)
ou mesmo o desinvestimento.
O artigo publicado na edição de Maio-Junho
de 1990 na 'Harvard Business Review' pelos gurus Gary
Hamel e C.K. Prahalad, intitulado "A competência
central da empresa", seria o mais reproduzido na
história daquela revista de Boston e tem direito
hoje a entrada própria na Wikipedia. E os
dois livros posteriores sobre o tema - 'Competing for
the future' e 'Competence-based Competition' - publicados
pelos dois autores em 1994 e 1995 tornar-se-iam rapidamente
bíblias de uma geração de CEO.
Uma pergunta Andrew R. Thomas
P: Hamel e Prahalad são responsáveis
pelos exageros do recurso ao "outsourcing",
ou foram os CEO que aplicaram "mal" a ideia?
R: O conceito deles é bom - mas em teoria. Em
teoria não há diferença entre a
prática e a teoria. Mas na prática há.
A ideia de focalizar nas "competências centrais"
deu cobertura a muitos líderes empresariais que
quiseram partir para a subcontratação
de quase tudo e construir empresas viradas para um negócio
de volume usando os megadistribuidores como veículo.
Cometeram o erro de largar também as forças
de vendas e as redes de distribuição próprias.
Livraram-se de mais do que deviam.
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Andrew Thomas critica, em particular, o abandono das
vendas e dos canais de distribuição. Esse
erro estratégico permitiu aos megadistribuidores
tomarem a liderança da cadeia de valor e passarem
a impor as suas regras de chapéu-de-chuva de
marcas e de gestão pela compressão contínua
dos preços pagos aos fornecedores (em virtude
da mania de "todos os dias o preço mais
baixo" para o consumidor). "Mas há
os que não foram nisso - como a Avon, Caterpillar,
Dell, Harley-Davidson, Sherwin-Williams (tintas), Starbucks
e Oreck (aspiradores e outros electrodomésticos),
que conservaram o controlo sobre as vendas, a distribuição
e a exclusividade das suas marcas. Collins & Atkins
é o caso mais recente na área dos componentes
de automóvel", diz o especialista de marketing.
Completamente ensanduichados
O problema, entretanto, agravou-se, pois os fabricantes
norte-americanos acabaram por ficar ensanduichados entre
as grandes superfícies e os fabricantes dos países
emergentes que começaram por ser seus subcontratados
e, recentemente, passaram a concorrentes directos no
negócio de volume. "A panaceia do "outsourcing"
revelou que a situação ficou fora de controlo",
adverte o professor.
A saída para fora desta ratoeira segundo o nosso
entrevistado é possível, mas não
é fácil: "Não crie nem venda
"commodities". Crie uma ideia de valor acrescentado
e exclusividade. Pequenos volumes com altas margens
podem ser a solução. Procure novos canais
de distribuição. O marketing directo pode
ser um deles. Aproveite as oportunidades de desenvolver
canais próprios nos mercados emergentes, onde
a janela de oportunidade ainda não foi fechada
pela megadistribuição".
O estudo foi divulgado na edição de Outono
da Revista Portuguesa e Brasileira de Gestão
(nº3).
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