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O render da guarda
O paradoxo do sucesso dos empreendedores
das empresas tecnológicas de base não
familiar é dar lugar aos gestores profissionais
nesses momentos de triunfo. Uma investigação
em mais de 200 firmas de tecnologias de informação
por Noam Wasserman, da Harvard Business School, que
mantém um blogue sobre este tema
Jorge
Nascimento Rodrigues à
conversa com Noam
Wasserman, Março 2008
ARTIGOS EM DESTAQUE:
Artigo científico base do estudo: "Founder-CEO succession and the paradox of entrepreneurial success", Organization Science, vol. 14, nº2, Março-Abril 2003
Artigo de divulgação: "The Founder's dilemma", Harvard Business Review, Fevereiro 2008
"Parabéns pelo seu sucesso; mas, desculpe,
está despedido de director-geral".
Este 'cumprimento' paradoxal é a melhor síntese
da investigação do professor Noam Wasserman,
da Harvard Business School, sobre a alta taxa de substituição
dos empreendedores de "start-ups" de base
tecnológica no comando das empresas que criaram.
O estudo inicial centrou-se em 202 empresas "dot-com"
na maioria baseadas na Califórnia (1) e insere-se
no interesse académico deste especialista pela
investigação das "frustrações
dos fundadores".
Wasserman, de 38 anos, professor de gestão e
empreendedorismo, definiu mesmo uma "lei"
- a do paradoxo do sucesso do empreendedor em empresas
tecnológicas não-familiares nos seus primeiros
anos de vida. "Quanto melhor for a 'performance'
de uma dada empresa tecnológica, mais rápido
provavelmente será necessário substituir
o seu cheio de sucesso fundador-director geral",
diz-nos o professor de Boston.
As métricas que permitem medir esse êxito
da empresa - e do fundador-gerente que a dirige - podem
ser o êxito do desenvolvimento de um dado produto
ou serviço tecnológico inovador, a capacidade
em angariar investimento avultado por parte de capitais
de risco, ou uma boa preparação de uma
entrada em bolsa.
Ao contrário do que pareceria indicar o senso
comum - em dirigente ganhador não se mexe -,
são exactamente, nestes momentos chave, nestes
pontos de inflexão da vida da "start-up",
que a substituição deve ser feita, procurando
que ela seja voluntária.
A investigação de Wasserman revelou estas
estatísticas impressionantes: 50% dos fundadores
já não eram directores-gerais (d-g) três
anos depois da criação da empresa; no
quarto ano, já haviam sido substituídos
60%; e só 25% dirigiram as suas empresas na entrada
em bolsa. Há casos raros de longevidade, diz
ele, entre as mais antigas: Bill Gates (Microsoft, d-g
durante 25 anos, até 2000) e Larry Ellison (Oracle,
um verdadeiro 'dinossauro', ainda continua como d-g
aos 63 anos, trinta e um anos depois de criar a empresa).
Saída a contragosto
É claro que muitos destes empreendedores não
largam facilmente o cargo de director-geral. A sua ligação
psicológica ao comando das empresas que fundam
é muito forte. E quanto mais sucesso e reconhecimento
público tiverem, maior o seu apego ao poder executivo.
Na esmagadora maioria - 98% - dos casos estudados em
que já houve sucessão (2), esta foi involuntária.
À maioria dos empreendedores é-lhes difícil
reconhecer a verdade de um lema: "só devo
ser director-geral até ao momento em que esse
cargo me ultrapassa". Ora, a função
de dirigir começa a pesar quando requer novas
competências para uma nova etapa da vida da empresa,
que, muitas vezes, o fundador, um bom especialista com
uma boa ideia e com um saber fazer específico,
não dispõe.
Por isso, alguns desenvolvem estratégias de
sobrevivência. Há mesmo um pequeno manual
informal: por exemplo, escolhem um nicho onde as suas
competências relacionais com parceiros são
decisivas ou onde não é necessário
muito capital; lançam-se a aprender capacidades
de gestão fundamentais para a etapa seguinte;
conservam uma boa percentagem no capital; criam um ambiente
de chantagem sobre a sua iminente saída.
O reverso da medalha é que estas substituições
são momentos críticos na vida de uma jovem
empresa: "pode substituir-se um executivo; não
se pode substituir um fundador - fundador é fundador".
"Perdê-lo completamente pode ser profundamente
disruptivo, no pior sentido, para a empresa", comenta
o nosso interlocutor.
Os fundadores-"boomerang"
Na maioria dos casos, os empreendedores de base tecnológica
mantêm-se na empresa para além da sucessão,
noutros cargos, mais honoríficos - mesmo de 'cosmética',
diz Wasserman - ou mais de orientação
estratégica (presidente do conselho, em 40% dos
casos), ou mesmo operacionais, nomeadamente técnicos
(chefes da área de tecnologia ou de ciência (3),
por exemplo), inclusive subordinados ao director-geral
(em 23% dos casos). Nestes casos em que ficam, actuando
no dia-a-dia, o desafio de articulação
entre o fundador e o novo director-geral não
é trivial.
E, paradoxalmente, até podem regressar ao lugar
de director-geral. A estes casos, Wasserman apelida-os,
ironicamente, de "fundadores-"boomerang""
. O exemplo mais acabado é o do co-fundador da
Apple, Steve Jobs (na foto), que regressou em 1997 à
liderança da empresa, depois de ter saído
para prosseguir outro projecto em 1985 (o NeXT). Também,
mais recentemente, o caso da Dell, e do seu fundador
Michael Dell, se insere dentro desta linha de excepção
- foi para presidente em 2004 e regressou ao cargo de
d-g em 2007.
Wasserman insiste que o estudo destes casos é
distinto do processo sucessório em empresas de
base familiar ou nas grandes empresas cotadas, onde
a maioria dos estudos sobre sucessão se têm
centrado. Ele prossegue a sua investigação,
avançando, agora, para o sector das "start-ups"
das áreas das ciências da vida, que ele
monitoriza a partir de uma base de 150 empresas.
O investigador acompanha o tema permanentemente no
seu blogue pessoal.
(1) A investigação abrangeu um universo de 1037 empresas de que foram recebidas 202 respostas válidas. A maioria (47%) dessas respostas foi de empresas sedeadas na Califórnia. Todas eram empresas "dot-com" criadas entre 1995 e 1999, antes do "crash" do Nasdaq em 2000.
(2) Dos 202 casos, 60 tiveram experiências de substituição, e em apenas 4 casos a sucessão foi voluntária.
(3) Os americanos inventaram, mesmo, os cargos Chief Technology Officer, Chief Scientist e Chief Software Architect.
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