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O gosto das multidões
("the taste of the crowds")

O jovem professor nova-iorquino Duncan
J. Watts explica porque o marketing se tem de adaptar
à economia de imitação social
«Penso que a principal transição
que as indústrias de media e entretenimento têm
de fazer é deixarem de se concentrar em 'vender'
um dado produto, que acham fadado para o sucesso, dirigido
a um 'consumidor' imaginário, e se focalizarem
nas interacções entre os próprios
consumidores, que tentam influenciar-se, espontaneamente,
uns aos outros, precisamente ao mesmo tempo que os homens
do marketing os tentam influenciar»
Jorge
Nascimento Rodrigues
com Duncan J.Watts,
Novembro 2006.
Ilustração de Paulo
Buchinho.
Sítio
de Duncan na Universidade de Columbia em Nova Iorque
Bestseller
anterior: "Six Degrees - The Science of a Connected
Age", 2003
Resultados da Investigação
Foram publicados na revista científica 'Science' em 2006 ('Experimental Study of Inequality and Unpredictability in an Artificial Cultural Market', Science 311, 10 de Fevereiro 2006) e mais tarde
reconhecidos, nas suas implicações para
a gestão e o marketing, pela revista 'Harvard
Business Review' ('Marketing in an Unpredictable World', HBR Setembro 2006, pg.25).
A economia da imitação domina hoje as
escolhas dos consumidores particularmente nas indústrias
de conteúdos e do entretenimento. Apesar de parecer
óbvio que os consumidores se influenciam uns
aos outros - ou de que, pelo menos, tomam preferencialmente
em atenção o gosto dos outros ou o que
julgam ser a opção dos outros -, o resultado
dessa mania de copiar não se consegue antecipar.
Só estando atento aos sinais, medindo e explorando
a procura dos consumidores quando emerge, é possível
influenciar o paradigma de que 'o vencedor ganha tudo'
("the winner-take-all", um tema lançado
por R. H. Frank e P. J. Cook em 1995, 2ªedição
em 1996 - "The Winner-Take-All Society".
Mudar de agulha
Esta tendência para o imprevisto e para o extremar
de campos entre os ganhadores e os perdedores é
reforçada pelo movimento da web 2.0, pela criação
de redes de influência social virtuais. O marketing
e os "marketeers" de hoje têm, por isso,
de mudar rapidamente de agulha, de deixar de querer
ser "adivinhos" ou aprendizes de "engenharia
social" - esta é a tese de Duncan J. Watts,
o jovem professor de sociologia da Universidade de Columbia,
em Nova Iorque, que ficou célebre, em 2003, com
o livro 'Seis Graus: A Ciência da Era Conectada'.
«Penso que a principal transição
que as indústrias de media e entretenimento têm
de fazer é deixarem de se concentrar em 'vender'
um dado produto, que acham fadado para o sucesso, dirigido
a um 'consumidor' imaginário, e se focalizarem
nas interacções entre os próprios
consumidores, que tentam influenciar-se, espontaneamente,
uns aos outros, precisamente ao mesmo tempo que os homens
do marketing os tentam influenciar», diz-nos Duncan.
E sentencia: «O mercado funciona muito diferente
da forma convencional como o entendemos». Recomenda,
por isso, que, em vez do 'afunilamento' num produto
vaticinado em sala para grande êxito, se crie
«um portefólio de produtos em que se possa
avaliar em tempo real a reacção do mercado
e proceder a uma resposta rápida de acordo com
o 'feedback' dos consumidores».
Quando fala da imitação social, Duncan
não se refere ao efeito do de boca-em-boca ou
do marketing viral protagonizado por "influenciadores
de opinião". O professor de 35 anos fala
do gosto da multidão que emerge no mercado.
Depois dos estudos feitos na última década
sobre a "inteligência das multidões"
parecida com a dos enxames (de Christopher
Meyer na Janelanaweb.com) ou a sua "exuberância
irracional" (como nos mercados financeiros ou nos
períodos de ruptura política e social,
como refere Robert
Shiller, Duncan optou por "testar" o que
se passa no mundo virtual dos gostos de consumo.
Mercado artificial serve de laboratório
sociológico
Com a sua equipa de sociologia, criou um mercado artificial
de escolhas de música em que 14341 jovens frequentadores
do sítio bolt.com, na maioria dos 15 aos 24 anos,
descarregaram canções de uma lista de
48 bandas completamente desconhecidas. Uma parte do
grupo fez escolhas individuais, sem conhecer as opções
dos outros; e outra parte realizou as escolhas conhecendo
a tendência de gosto dos antecessores.
Ficou patente que os jovens sujeitos à influência
dos outros, geraram um comportamento colectivo, por
um lado, imprevisível e, por outro, profundamente
extremado entre as mais populares e as mais impopulares.
«Os mercados não se limitam a agregar simplesmente
as preferências individuais pré-existentes
nos consumidores. Formam algo completamente novo, autónomo.
E, é claro, que num mundo real em que o marketing
agressivo, o posicionamento dos produtos, a crítica
bajuladora e a atenção dos media desempenham
um imenso papel, a influência social é
ainda maior do que numa experiência virtual»,
concluiu Duncan.
RESPOSTA RÁPIDA
«A ideia de que há preferências
intrínsecas do consumidor, eventualmente derivadas
da qualidade, é inadequada.»
Porque é que os "marketeers" se enganam
tanto, e ficam espantados com o que acaba por ganhar,
muitas vezes sem nada ter a ver com a qualidade intrínseca
do que se vende?
Duncan J. Watts: A ideia de que há preferências
intrínsecas do consumidor, eventualmente derivadas
da qualidade, é inadequada. Por vezes, a única
razão por que conhecemos algo é porque
alguém gostou disso. Não faz por isso
algum sentido falar de preferências que existiriam
independentemente do ambiente social no qual as pessoas
comuns tomam decisões. Não estou a dizer
que a qualidade - seja qual for a sua definição
- é irrelevante. Mas que é, apenas, parte
da história, e possivelmente não é
a mais importante.
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